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05 maio 2013

MÃES, QUE FOMOS, QUE SOMOS, QUE SEREMOS!...

 
 
 
SILOGISMOS

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaços e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

De: Ana Luisa Amaral
 
 
 
 
 

29 julho 2012

..."PLAY IT SAM..."




CASABLANCA

Não era um bar de Kashbah, mas um café
em Leça da Palmeira (pequena vila ao norte
do país), a tua voz aqui me leva lá

O resto: é só mudar na gente aqui
a roupa ocidental para barba e burel,
vislumbrando punhal entre mil panos

O resto: é só virar a cor do espectro
para branco e cinzento - já agora
em lugar daquela mesa, organizar piano (em contraponto)

O resto: é só subir a temperatura
uns vinte graus (ou mais) disfarçar a ternura
como, há cinquenta anos, esses dois

O resto: é inventar em Leça da Palmeira,
no meio de nevoeiro tão imenso,
um olhar tenso a disfarçar-se brando
(um poço de desejo, e ventoinha em avião de espanto)

Nas mesas do café de Leça da Palmeira:
Casablanca voando, e à medida que o tempo
se desfaz imenso: um saxofone brando,

deixar junto do verso a promessa do nada
que não houve, mas se senta ao piano
repete, como em sonho, a mesma melodia

- traduzida em inglês: toca outra vez e outra,
que nem Kashbah aqui, mas bem podia
ser a tua voz (num registo final)

AnaLuísaAmaral