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09 março 2015

PAISAGEM




passavam pelo ar aves repentinas,
o cheiro da terra era fundo e amargo,
e ao longe as cavalgadas do mar largo
sacudiam na areia as suas crinas.

era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
era a carne das árvores elástica e dura,
eram as gotas de sangue da resina
e as folhas em que a luz se descombina.

eram os caminhos num ir lento,
eram as mãos profundas do vento
era o livre e luminoso chamamento
da asa dos espaços fugitiva.

eram os pinheirais onde o céu poisa,
era o peso e era a cor de cada coisa,
a sua quietude, secretamente viva,
e a sua exalação afirmativa.

era a verdade e a força do mar largo,
cuja voz, quando se quebra, sobe,
era o regresso sem fim e a claridade
das praias onde a direito o vento corre.

de: Sophia de Mello Breyner Andresen 
em: Obra Poética I







30 maio 2013





estava sentada no meio do café, com as mesas cheias
à sua volta. estava sózinha, e o olhar perdia-se
entre o ar e o balcão, fingindo estar atenta
ao que se passava, como se alguma coisa se
passasse entretanto. tinha tomado o café; e o copo
de água estava cheio, ao lado de um cinzeiro
que não servia para nada, porque não fumava.
 
segui a direcção dos seus olhos, vendo o vazio
formar-se no lugar em que os meus e os dela
se cruzavam, nessa zona branca do café em que
o fumo dos cigarros absorvia as conversas e
o barulho das chávenas. e deixei-a estar por
algum tempo, na ilusão de que estava sózinha,
até olhar para a porta, de onde alguém viria.
 
não fiquei para saber se quem chegou era quem
ela esperava, ou se continuaria a fixar o
horizonte da parede onde um relógio insistia
em pontuar o tempo. e continuo a vê-la,
puxando o cabelo para trás, num gesto de quem
julga que alguém vai chegar, sem saber que
quem havia de chegar a deixou sózinha, comigo.
 
Nuno Júdice
 
 
 

 

03 maio 2013

VOZES MINHAS




O súbito fraseador que mimava
a sua fala pela do vento
não me disse Heraclito fui,
tal como eu o pensei.
Disse só deste lado do recorte
da serra sopra mais.
Ouvir por dentro. Clarear
traços que nos separam
da figura falante. O amanho
da Terra liga-nos.
Ouvinte do vento, não me
disse como eu: Verdade
e substância, na primeira apanha.
Quietude. Êxtase, na eclosão.

Cavou ao longo da esticada corda
que orienta as leiras. Esteve
em movimento ali um dia: Ó terra,
tudo está nos sentidos
antes do senso, voz certa,
som áspero, vento de rajadas grossas.

Fiama Hasse Pais Brandão
"Três Rostos - Ecos"