Mostrar mensagens com a etiqueta CHET BAKER. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta CHET BAKER. Mostrar todas as mensagens

28 setembro 2014

PEDIA-ME QUE EU ABRISSE UM LIVRO





Pedia-me que eu abrisse um livro
e procurasse o centro da casa
que lhe dissesse a palavra correspondente a mesa
mas também o som das loiças
os tapetes colados no chão
queria tocar a palavra que sentisse verdadeiramente a tristeza
e o seu coração móvel como uma vasilha de barro
por onde os meus lábios sugam todo o seu entendimento.

Eu lia-lhe as palavras mais limpas
não fosse a sua alma destruir-se contra a minha voz
e o olhar dela buscava a identificação de alguma coisa falsa
talvez a minha habilidade em poupar o seu sofrimento.

É uma doença a leitura que eu faço da casa
e dos dias na sua presença
tudo o que ela escuta é a perfeição da sua ignorância
nada é para destruir nas imagens que lhe apresento
a casa será sempre o centro do livro
e os lugares de dor algumas páginas emocionalmente vazias.

de: Fernando Esteves Pinto
em: Área Afectada

[Temas Originais, Ldª. 2010]





20 agosto 2012

SÚMULA




Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma 
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas 
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

[...]

Herberto Helder