Mostrar mensagens com a etiqueta DIANA KRALL. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta DIANA KRALL. Mostrar todas as mensagens

10 janeiro 2015

ÁREA BRANCA





#37

Embrenho-me na área branca da noite.
Uma arena onde os acrobatas
viveriam com exuberância. O arame
atravessa já as minhas órbitas.
Um olhar saudoso percorre as últimas
formas.

Os elementos brancos, os aromas,
o vapor que oscila no fim da queda

de um fragmento. Segue-me a voz maviosa
que orienta os cegos. Reparo que me torno
homónima do poema. Abençoo o meu texto
que não me despreza. Os versos
que ainda amarfanho. A vida cruel nas áreas
contaminadas pela ininteligibilidade.

de:Fiama Hasse Pais Brandão
[Março 1977]
em: ÂMAGO




04 novembro 2014

É OUTRA VEZ A MÚSICA





é outra vez a música,
é outra vez a música que me chama,
outra vez esse esplendor quase animal
que me procura e comigo se faz alma
ou primeira manhã sobre as areias.

de: Eugénio de Andrade




25 março 2014

EU CANTO A CHUVA, A TERRA, O VERME





toda a chuva a cair me torna grata
por ela e pela que tem caído sobre mim
nos anos sem tacto, sem vista, sem olfacto.
aqui bebo-a misturada com os resíduos
que o vento trás do fundo do pomar,
gravetos, folhas e flores perdidas.
o cheiro de uma flor de laranjeira perfumou
esta água, para a ablução dos pés
de um poeta que antes fora nómada.
depois, porque não hei-de vestir-me com a túnica
da chuva, que me envolva como árvores
ou um corpo humano vivo e natural?
dormir, onde esta lama doce e insonora
calidamente me vista e me sepulte?
verme, que constróis o altar da chuva
com os teus pequenos montículos e covas
e sob o córtex da nogueira velha
escondeste a tua vida, como oferenda
que vai ser recolhida pelas mãos
de uma criança que ame os dons naturais;
verme, que sabes que eu outrora
já fui muda, não-gerada e ausente,
mostra-me o que mais sabes da chuva,
como és sinuoso nela, vivente,
e eu que devo fazer na pura terra
contigo, lado a lado, ó laborioso?

de: Fiama Hasse Pais  Brandão [25/5/1994]
in: ÂMAGO antologia







17 novembro 2012

OUTONO






uma lâmina de ar
atravessando as portas. Um arco,
uma flecha cravada no Outono. E a canção 

que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas. 
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio. 

É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
cumprimenta o sol. Procura-se viver.


Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
a imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
que a minha boca recusa. É outono
a pouco e pouco despem-se as palavras.

Joaquim Pessoa