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09 fevereiro 2015



                 

   ACORDE
   onde passou o vento
    são altas as ervas,
    e os olhos água
   só de olhar para elas.

  de: Eugénio de Andrade
  [Primeiros Poemas]


  




04 novembro 2014

É OUTRA VEZ A MÚSICA





é outra vez a música,
é outra vez a música que me chama,
outra vez esse esplendor quase animal
que me procura e comigo se faz alma
ou primeira manhã sobre as areias.

de: Eugénio de Andrade




18 abril 2014

PÁSCOA FELIZ



imagem do google

foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
e algumas palavras. poucas,
ditas como por acaso.

eram contudo palavras de amor.
não propriamente ditas,
antes adivinhadas. ou pressentidas.
como folhas verdes de passagem.
um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.
foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
por isso brilhavam. como folhas
molhadas.

de: Eugénio de Andrade, em
"Os sulcos da Sede"




07 agosto 2012

PERTENCEMOS JUNTO ÀS ÁRVORES



Ninguém me disse, contemplei e percebi tudo
Tive noção do que foi o passado, o nosso chão
E senti as vidas de outros tempos junto ao corpo
Dançando à chuva, numa existência verdadeira.

Pertencemos junto às árvores, onde se sente o equilíbrio
Onde o ar sabe melhor e é mais fácil respirar.
As raízes do que somos estão onde devem estar
Cravadas na terra, em comunicação com o universo.

Pertencemos junto às árvores e junto aos rios
Ninguém me disse, percebi tudo sem pensar.

Senti, em volta do corpo, a energia de outras existências
Das suas vozes, das suas mãos estendidas sem receio
Se fechar os olhos, sinto-a e tudo faz sentido

Pertencemos junto às árvores e junto aos rios.

Nuno Marques




PROCURO...

O LUGAR DA CASA
Uma casa que fosse um areal
deserto; que nem casa fosse;

só um lugar

onde o lume foi aceso, e à sua roda
se sentou a alegria; e aqueceu
as mãos; e partiu porque tinha
um destino; coisa simples
e pouca, mas destino:

crescer como árvore, resistir
ao vento, ao rigor da invernia,
e certa manhã sentir os passos
de abril
ou, quem sabe?, a floração
dos ramos, que pareciam
secos, e de novo estremecem

com o repentino canto da cotovia.

Eugénio de Andrade


ATÉ QUANDO A COTOVIA VOLTAR A CANTAR
NUM ACENO DE ATÉ LOGO



27 junho 2012

ENTRE AS FOLHAS NEGRAS DA FIGUEIRA


Entre as folhas negras da figueira
e os erros do ofício 
passa o rio.

Que rio é esse?
Passa irmanado à luz pueril
dos cereais, à magoada
voz de quem perdeu o sono.

Leva com ele, entre o roxo
da sombra e as silabas contadas,
um verão de abelhas,
a profusão do mel.

Sigo-lhe os passos, perco-me
com ele.

Eugénio de Andrade

Fonte: http://repositorioaberto.uab.pt/bitstream/10400.2/1536/1/Eug%C3%A9nio%20de%20Andrade_uma%20proposta%20de%20plenitude_F%C3%A1tima%20Cordeiro.




27 abril 2012

SÃO HERANÇA CAMPONESA, AS MÃOS.



São herança camponesa, as mãos.
Estas pequenas mãos, de geração
em geração, vêm de muito longe:
amassaram a cal, abriram sulcos
frementes na terra negra, semearam
e colheram, ordenharam cabras,
pegaram em forquilhas para limpar
currais: de sol a sol nenhum
trabalho lhes foi alheio.
Agora são assim: frágeis, delicadas,
nascidas para dar corpo a sons
que, noutras épocas, outras mãos
se obstinaram em escrever como
se escrevessem a própria vida.
Ao vê-las, ninguém diria que
a terra corria no seu sangue.
São mãos envelhecidas, mas no teclado
são capazes do inacreditável: juntar
nos mesmos compassos o rumor
dos bosques em setembro e os risos
infantis a caminho do mar.

Eugénio de Andrade







12 março 2012

METAMORFOSES DA CASA



Ergue-se aérea pedra a pedra 
a casa que só tenho no poema. 

A casa dorme, sonha no vento 
a delícia súbita de ser mastro.
Como estremece um torso delicado, 
assim a casa, assim um barco. 

Uma gaivota passa e outra e outra, 
a casa não resiste: também voa.
Ah, um dia a casa será bosque, 
à sua sombra encontrarei a fonte 
onde um rumor de água é só silêncio. 

de: Eugénio de Andrade