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25 março 2015

HERBERTO HELDER


as minhas palavras são pequeninas para homenagear-te:
Poeta dos Poetas!
ESTARÁS SEMPRE ENTRE NÓS, TU BEM SABES.


23 Novembro de 1930 a 23 de Março de 2015


e porque porque gostas tanto, trouxe-te
BACH, como se fossem flores da Primavera, que renasce para saudar-te
na tua viagem

    
estilo

     Se eu quisesse enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis. Vi muita coisa. Contaram-me casos extraordinários, eu próprio... Enfim, às vezes não consigo arrumar tudo isso. Porque, sabe?
(...) pag 7

As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
(...)

   -  E nada mais somos do que o Poema onde as crianças
se distanciam loucamente.

Trata-se do excerto de uma poesia. Gosta de poesia? Sabe o que é poesia? Tem medo da poesia? Tem o demoníaco júbilo da poesia?
(...) pag 9

Herberto Helder
in: PASSOS EM VOLTA



18 janeiro 2015

AUTOBIOGRAFIA




lembrando Rui Costa [1972-2012]

não preciso mas tu sabes como eu sou
encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
as pessoas quando acordam são outras, já sabias,
essa névoa contemporânea do medo miudinho
que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
tu bem sabes.
depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
e a minha vida mudou, a noite cresceu,
a vertigem ardeu-me nos braços até a sangria
do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
na luta perdi um ou dois braços,
mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
são corais no pensamento. Jardins e fantasmas,
o gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
e profunda: sem braços e agora sem mais nada.
não me percebeste, enchi-me de fúria.
é uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos ─ ,
ceifando. Saturno e o vento na proa erguendo.
o navio no mar parado, parado: completamente.
parado como dizer? Não dizer, eu sou uma vida
medonha e múltipla. E agora descanso
deitado nestas mãos que mexem
sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
p’la manhã.

de: Rui Costa
em: A Núvem Prateada das Pessoas Graves




23 setembro 2014

QUE COR Ó TELHADOS DE MISÉRIA





*ANTÓNIO RAMOS ROSA*
(17 Outubro 1924 † 23 Setembro 2013)


que cor ó telhados de miséria
onde nasci 
de tanta pequenez de tão humildes ovos 
de nenhum querer 
a que horas nasceram as estrelas que 
um dia foram 
a que horas nasci? 

Não vim embarcado não me encontrei 
na rua 
não nos vimos 
não nos beijamos 
nunca parti 

Não sei que idade tenho 

Quando havia antes um antigamente 
havia uma esperança 
agora no próprio coração da ilusão 
onde a água limpa as pedras das ruínas 
entre destroços límpidos 
deito-me sobre a minha sombra e durmo 
e durmo 

Quando havia antes um amanhecer 
à beira do abismo 
agora no próprio coração do coração 
durmo estrangulando um monstro inerme 
um palhaço de palha seca e pálido 
quando havia antes um caminho 

Não houve nunca amigos nem, pureza 
Nem carinhos de mãe salvam a noite 
É preciso ir mais longe na incerteza 
É preciso no silêncio não escutar 

A manhã que eu procuro não foi sonhada 
Uma árvore me ignora na raiz 
Perfeitamente desesperado é o meu sonho 
Os pássaros insultam-me na cama 
Só com doidos com doidos amaria 
perfeitamente presente na frescura 
do mar 

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço 
a líquida frescura duma jarra 
um passo leve e certo em cada sombra 
um ninho em cada ouvido 
de doces abelhas cegas 

Uma casa uma caixa de música e sossego 
Um violão adormecido na doçura 
Um mar longínquo à volta atrás do campo 
Uma inundação de verdura e espessa paz 
Uma repetida e vasta constelação de grilos 
e os galos álacres do silêncio 

Um mar de espuma e alegria obscura 
um mar de espuma e alegria clara 
entre o verde e a brisa 

Na brancura dos quartos 
a inocência poderá sonhar desnuda 
os insetos poderão entrar 
juntamente com as plantas e as aves 
Uma longa asa passará 
O mundo e o silêncio a mesma ave 
e o mar 
o mudo leão longínquo e fresco 
faiscará entre o ver e as lâminas solares


*
MÚSICA PARA RAMOS ROSA:
F. CHOPIN, Vladimir Ashkenazy, 
Étude No.24 in C minor, Op. 25 No.12




04 dezembro 2013

FRANCISCO DE SÁ CARNEIRO


AINDA ESTÁ VIVO NAS NOSSAS MEMÓRIAS



E ACTUALISSIMO, ESTE ARTIGO, APESAR DE TER SIDO PUBLICADO EM 2010! 

Francisco Sá Carneiro morreu há 30 anos no dia 4 de Dezembro de 1980. Eu era ainda um petiz, mas lembro-me perfeitamente de estar nesse dia à noite, de visita a casa de uma tia minha na Levada de Santa Luzia, onde a sua televisão a preto e branco, tornara-se o centro das atenções de toda a família.
Na altura apenas com 11 anos, percebia que "aquele senhor" do governo morrera de avião...Mais nada.
No último número da revista Visão(n.º 926 de 2 de Dezembro), Miguel Carvalho assina um artigo interessantíssimo sobre Sá Carneiro e relembra algumas frases proferidas pelo desaparecido Primeiro-Ministro, que eu desconhecia, mesmo antes de eu militar no seu partido no final da década de oitenta entre festejos de amigos, muito diferentes da profunda desilusão com alguns adulteraram e traíram o seu ideal, apesar de invocarem o nome de Sá Carneiro em todas as ocasiões...
Creio mesmo que Sá Carneiro não identificaria hoje o seu legado neste Portugal dos nossos dias, sobretudo daqueles que de entre as suas fileiras, ostentam a sua imagem nos núcleos partidários...
Eis, pois algumas das frases atribuídas a Francisco Sá Carneiro:

  • «Se nos demitirmos da intervenção activa, não passaremos de desportistas de bancada, ou melhor, de políticos de café.» - 1.º discurso político integrado na campanha para as eleições - Teatro Constantino Nery, Matosinhos, 12 de Junho de 1969
  • «Somos um povo conformista (...) Vamos aceitando tudo e procurando no verbalismo dos colóquios a paz da boa consciência (...)» - Expresso-«Visto»-Dezembro de 1973 (cortado pela censura e publicado a 4 de Maio de 1974)
  • «Na sua evolução para um sistema mais justo é necessário o continuado reforço do poder dos trabalhadores na economia (...)» - Entrevista a O Século - 6 de Junho de 1974
  • «Há que impor uma disciplina de actuação do poder económico e dos investimentos, para que ele seja feito com proveito para todos nós e não apenas para os detentores desse poder» - Entrevista ao Diário Popular - 8 de Julho de 1974
  • «Não vejo como uma via neocapitalista ou neoliberal possa dar solução às graves contradições e desigualdades com que se debate a sociedade portuguesa» - Entrevista ao Século Ilustrado - 30 de Novembro de 1974
  • «Quem tenha o mínimo de conhecimentos da história da humanidade ou esteja atento ao panorama social em que vive, não pode evidentemente ignorar a luta de classes» - Entrevista a A Capital - 21 de Junho de 1975
  • «O povo português nunca teve os dirigentes que mereceu» - Conferência de Imprensa - 28 de Novembro de 1975
  • «É necessária uma política de austeridade. Mas impõe-se que essa política de austeridade não recaia, especialmente, sobre as classes trabalhadoras (...) É preciso que ela se integre numa política de relançamento da nossa economia. Sem isto não há austeridade que valha a pena» - Entrevista a O País - 3 de Março de 1976
  • «Não me considero uma figura carismática, nem tão-pouco penso que essas figuras sejam absolutamente essenciais. Antes pelo contrário (...)» - Entrevista a A Luta - 23 de Abril de 1976
  • «Uma Comunidade [Europeia] entendida como grupo de países ricos, autosuficientes, divididos dos países menos desenvolvidos do Sul da Europa, marcaria uma condenável divisão entre Norte e Sul (...)» - Intervenção na A.R. - 10 de Novembro de 1977
  • «Numa sociedade em regressão económica acentuada e em que o desemprego muito alto se combina com uma alta inflação, é natural e justo que os trabalhadores procurem assegurar a estabilidade dos seus empregos através de um estatuto de protecção legal que impeça totalmente os despedimentos, por exemplo, ou que dificulte de tal modo que lhes dê segurança.» - Entrevista ao Jornal Novo - 23 de Fevereiro de 1977
  • «O nosso Povo tem sempre correspondido, nas alturas de crise. As elites, as chamadas elites, é que sempre o traíram (...)» - Discurso no convívio do Vimieiro - 2 de Abril de 1978
  • «Gosto demasiado da política para ser Presidente da República» - Entrevista à revista Cambio - 4 de Dezembro de 1980 (dia da sua morte)
Todas estas frases recolhidas pelo Miguel Carvalho são quase que visionárias a propósito da completa adulteração daquilo que Sá Carneiro queria para os portugueses. O mais triste e até vil, é que aqueles que sempre o invocam e pretendem sempre se colar ao ideário do antigo líder, são quase sempre os mesmos que seguem um caminho diferente e contrário - como agora se viu no recente acordo alcançado - que não só traem a sua memória, como também o próprio Povo e os "Trabalhadores" (uma denominação arredada do vocabulário tecnocrata da política moderna)... 





24 setembro 2013

À SOMBRA DE UMA ÁRVORE O TEMPO JÁ NÃO É O TEMPO MAS A MAGIA DE UM INSTANTE QUE COMEÇA SEM FIM



ANTÓNIO RAMOS ROSA



Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses


in: CADA ÁRVORE É UM SER PARA SER EM NÓS
  [2002]






o mundo cabia inteiro na sua mão




25 março 2013

TORQUATO DA LUZ





AO PIANO
Sentavas-te ao piano e tocavas Chopin
enquanto eu não chegava. Era a missa pagã
das luminosas tardes com que a Primavera
nos acordava ao fim da invernosa espera.
À margem do caminho as pedras rebentavam
em frágeis flores, como se as teclas que tocavam
os teus dedos de súbito achassem maneira
de dizer que me esperavas, inocente e inteira
.


de: Torquato da Luz



poeta, pintor e um querido amigo
deixou-nos hoje
leva contigo o meu sentido abraço de saudade
estarás sempre entre nós, Torquato


nota: com a devida licença de Torquato da Luz, este poema, bem como o vídeo que o acompanha, foi o primeiro que publiquei deste autor, que muito aprecio, razão de estarem hoje aqui, com todo o carinho e respeito que o Poeta me merece.
foi em 3 de janeiro de 2011.

publicado em "decifrar ou traduzir"