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20 agosto 2014

BILHA






Assisti a um ritual da água. 
Estava num café em Barrancos, e num nicho na parede, junto ao balcão, repousavam duas bilhas de barro. 
Aparentemente inúteis. 
Velhas, encardidas pela sofreguidão das mãos que as levaram à boca. 
A minha ignorância urbana, julgava-as esquecidas, não lhes concedendo sequer as veleidades do artesanato. 
Que turismo se desloca a um café de Barrancos para ver duas bilhas abandonadas num nicho? 
À falta de espargos com ovos, saboreava um catalão assado, e foi quando me dei conta que os fregueses iam ao pátio encher as bilhas. 
Avaliavam entre si a frescura de cada uma, e levantavam-nas acima da cabeça. 
Bebiam como os vizinhos espanhois, deixando que a água lhes caísse directamente na boca. 
Sem que os lábios tocassem o gargalo. 
Mal os ouvia, e a discrição com que se saciavam, não me concedia a oportunidade de ouvir barranquenho. 
Creio que é aqui que há tocadores de pedras. 
Escolhem-nas entre os seixos do leito seco do Guadiana, e interpretam-nas à maneira que a sede os ensinou. 
Como só é possível entre povos que conhecem a graça da água.

de: Jorge Fallorca [1949-Abril de 2014]
do: Jornal da Poesia



19 julho 2012

EU CONHEÇO UMA MÚSICA FRÁGIL COMO A CHUVA



Eu conheço uma música frágil como a chuva ou as lágrimas evitadas. É uma música que ouço muitas vezes enquanto escrevo ou leio, ou que ecoa dentro de mim enquanto leio o que escrevi.

Cada vez que a ouço, que percorro o teclado infindável do piano onde me refugio, esqueço-me do que escrevi e leio as lágrimas que não chorei sulcadas no meu rosto, à espera que chovesse.

Que me lembre, é uma música onde tu não estás. Uma música que se calhar não existe, ou não existe assim, e não passa de uma desajeitada desculpa para finalmente poder chorar.

Jorge Fallorca
[Telhados de Vidro nº 11]

Fonte:  canaldepoesia.blogspot.pt/