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05 setembro 2014

A MÃE QUE CHOVIA



Juntos, trocavam tardes de domingo, descanso, 
beijinhos e coisas mornas de mãe e filho.

Enchiam a barriga de brincadeiragem.
Ele fazia corridas com a mãe,
... brincava às escondidas com ela
e a um jogo secreto que se chamava
"Não tens nada a ver com isso".
[pág.10 e 11]




[...]
Mãe, choves o significado do teu nome sobre a terra,
choves amor que faz nascer plantas-bebés, sorrisos
verdes, que faz crescer saladas e sopas. Mãe, sem ti
não existia a palavra "verdejante". Há tantas palavras
que não existiam sem ti. Mãe, choves palavras sobre o
mundo. As palavras que lanças devagar sobre os campos
enchem os rios e as barragens, dirigem-se ao mar.
Em casa, as pessoas abrem torneiras para encher os copos
com as palavras que choves. É assim que o teu amor
se espalha pelo mundo e, quase sem se notar, o inunda.
Porque tudo aquilo que fazes crescer faz crescer também,
dás vida que dá vida. A mim que sou teu filho, teu filho, 
deste-me toda a vida que tenho e dás-me sempre o teu amor
mais brilhante. Mesmo quando estou onde não podes estar,
mesmo quando estás onde não posso estar, sabemos bem
o tamanho desta certeza que nos une. Eu tenho a certeza
de ti, tu tens a certeza de mim. Amor, essa palavra. Mãe,
choves essa palavra dentro de mim. 
[...]
[pág.59]

de: José Luís Peixoto





29 junho 2014

A TRADUTORA





tu lês. antes de ti, ela muda as palavras. antes dela,
eu escrevo. eu passei por aqui, ela passou por aqui,
tu passas agora por aqui.

entendes isso? ela está onde tu estarás. eu estou onde
ela estará. eu corro pelas palavras, ela persegue-me.
tu corres atrás de nós para nos veres correr.

eu escrevo casa e continuo pelas palavras. ela segura
as letras da casa e escreve vida. tu lês vida e entendes casa
e vida. eu não sei o que entendes.

eu corro. ela corre atrás de mim. tu corres atrás dela.
não existimos sozinhos. sorrimos quando paramos,
quando nos encontramos. aqui.

José Luís Peixoto 
em: A Casa, a Escuridão






13 fevereiro 2014

QUILÓMETRO DEZASSEIS



Duy Huynh


[...]
à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr atrás desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de
vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal.

José Luís Peixoto
in: Cemitério de Pianos






ATÉ BREVE






22 junho 2013

ARTE POÉTICA

 


"o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?,que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido. "

José Luís Peixoto
"Criança em Ruínas"

 

 

06 junho 2013

CAL

 
 
  
... ana molhou uma toalha no alguidar e envolveu a mão do fugitivo
onde faltava o dedo médio e o indicador... na sua pele o sangue era mais claro
do que na toalha. na toalha, tinha a côr de um grito de sangue. na pele, era
como se fosse a memória do sangue.
 
... os olhos de ana não tinham idade e, quando reparou que os olhos daquele
homem também não tinham idade, o sangue parou de embeber a toalha.
 

quando chegou março,
nasceram flores nos campos.
debaixo da azinheira nasceu
uma única flor.
                 era uma flor bravia
as raízes dessa flor
atravessavam a terra, eram
longas, e entravam dentro do
corpo do mudo. aquilo que
tinha sido a vida do mudo
entrava por essas raízes
e corria dentro dessa flor.
ninguém sabia, mas o mudo
era essa flor. continuava
mudo. as suas roupas pretas,
apodrecidas debaixo da terra,
eram pétalas brancas. os fios
da sua barba, misturados com
a terra, eram pétalas brancas.
a cadela, sem saber que ele
era uma flor, continuava
perdida pelas ruas da vila.

José Luís Peixoto


 
 

17 março 2013

BOTSWANA




as árvores têm a idade das rochas
as rochas têm a idade da terra
no Botswana é possível contemplar a criação do mundo
ou o dia seguinte à criação do mundo
o primeiro dia

quando o guarda flortestal desliga a chave na ignição do jipe
existe o silêncio absoluto

o silêncio
imenso
permanece sobre nós

oceâno que flutua
suspenso sobre nós

há uma voz que nos fala baixinho
dentro do nosso peito ou em todos os lugares do mundo
e o sol começa a descer
a pique
vertiginosamente
ninguém pode pará-lo

o horizonte incendeia-se

a música nasceu num momento assim

[...]

o meu coração bate
sim
as árvores têm a idade das rochas
as rochas têm a idade da terra
a terra tem a idade da noite

o mundo inteiro está coberto por estrelas

de: José Luís Peixoto [Botswana]



06 dezembro 2012

POEMA e... FELIZ NATAL!

ARTE POÉTICA

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?,que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
José Luís Peixoto



02 dezembro 2012

DÁ-ME ALGUMA DA TUA PELE TERRA

 
 

 
 
 dá-me alguma da tua pele terra
tu que não me pedes nada e
me apareces de noite vestida de
nudez pele terra e me abres caminhos
para que te conheça dá-me algum
do silêncio que me dás para que
nele te diga pele terra se de noite
me apareces iluminada de muitos
pássaros a nascer e a voar a
nascer e a voar silêncio pele terra
para que te conheça dá-me o que
dás a todos e nunca deste senão
a mim pele terra tu que me dás
os gestos das minhas mãos
a música das minhas palavras que
me dás pele terra esconde-te
dentro de mim

José Luís Peixoto
 in: "A Criança em Ruínas"
 
 
 
 
 

05 agosto 2012

"A CASA, A ESCURIDÃO"


Amor o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luís Peixoto 
"A Casa, A Escuridão"








23 março 2012

VOLTA AO MUNDO...





Abandona os gestos desnecessários, abandona
o peso e a forma do corpo, abandona o chão.
Tens altura suficiente para entrar. Podes
sentar-te à frente e podes levantar os braços nas
descidas. Subirás devagar, aproveita para ver
a paisagem. Descerás de repente, num instante de
onomatopeias: zut, vrrrum. Grita. Se quiseres,
podes gritar. O vento gritará ao teu lado.
Tens o cinto de segurança posto, já não podes
voltar atrás, já não podes abandonar o ritmo
a que bate o teu coração, o teu coração, o teu
coração. Respira, a vida é feita de estar vivo.
Não vás de olhos fechados, abre os olhos
e respira, repara neste momento da tua vida:
estás numa montanha-russa, mas nem estás
numa montanha, nem estás na Russia.

José Luís Peixoto
[publicado na revista "Volta ao Mundo" em Março de 2012]