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30 novembro 2012

LYA LUFT


 
  
Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Mordo devagar
o fruto desta inquietação.
(Alguém me inventa e desinventa
como quer: talvez seja esta a minha condição.)

Bastaria um momento de silêncio
para eu ser feliz:
mas do fundo do palco
uma voz me chama.
Serás tu, amor,
ou é a morte, apenas, que reclama?

Lya Luft
 
fonte:
 
 
 

TEATRO DE SOMBRAS

Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Alguém me inventa e desinventa
como quer:
talvez seja esta a minha condição.

Alguém dirige o teatro de sombras
no qual fui ré setenciada.
Finjo entender de tudo:
ando de um lado e outro,
faço gestos com a mãos,
cuspo as sementes do fruto
entalado na garganta
com um grito: Alguém aí pode me ouvir?

Ninguém reage, ninguém tenta aplaudir:
nesse reino todos usam disfarces,
menos a solidão.

Lya Luft
 
fonte:

 
 
 
obs: eu apenas conhecia a segunda versão deste poema, estranhei encontrar a primeira que, confesso, desconhecia, deixo as duas aguardando ensinamento.
 
 
 

20 novembro 2012

REGRESSO À CAVERNA DE PLATÃO



no conflito entre o poeta e o filósofo,
ensina Platão que não se deve fixar o sol
porque, depois de o fazer, ofuscados
pelo brilho intenso, não nos habituamos
aos objectos comins, e assim nos perdemos
das coisas reais, após a revelação
da verdade celeste.

ée então que o homem, ainda com o peso
da luz no espírito, tacteia em roda, procurando
a saída, e encontrando apenas as sombras,
que o empurram de um para outro lado,
como um simples boneco, fechando-o
para o mundo inteligivel, de que sente
a nostalgia e o desejo.

por um lado, o filósofo compreende
esta situação, e desenvolve um raciocínio
cujo enncadeado dialéctico o conduz a uma
alegoria: prisioneiro expulso da luz
pelo excesso de luz, o homem sente mais
profundamente a sua miséria, agora que
descobriu a obscuridade e os limites
do mundo, na gruta que o prende. é aqui,
no entanto, que o poeta perturba
a lógica do pensamento.

com efeito, o poema corresponde à luz
do sol, com a sua plena revelação do absoluto,
sem provocar a cegueira. Pelo contrário,
é nele que nos movemos à vontade, sem precisarmos
de saír do mundo para deescobrir a sua evidência,
por outro lado, as suas imagens são um reflexo luminoso
de tudo o que, na realidade, nos parece incompleto
e sombrio. «então», diz o poeta,
«para quê fixar o sol, se as minhas palavras
reproduzem a sua luz?»

«por isso», responde o filósofo, «não tens lugar
na minha república. não convém dar a vista
aos cegos, quando a minha função é guiá-los,
nem dizer-lhes que o sol está ao alcance da mão,
quando é através de mim que o devem
atingir.»

por vezes, o conflito de interesses
sobrepõe-se à razão; e, no erro do filósofo,
a sombra do mundo do mundo impede que a luz da verdade
se imponha no espírito, fazendo com que
a falsa dialéctica se desenvolva até ao fim
mais absurdo.

Nuno Júdice
«Geometria Variável»



07 abril 2012

O ABANDONO. O VAZIO. A INDIFERENÇA. (...)




(...) Tudo está feito, o que tinhas a dizer já o disseste, os que dialogavam contigo para estarem de acordo ou te insultarem foram recolhendo ao silêncio definitivo. É a hora de te ires calando também, recolheres à aposentação de falares e de ouvires. Porque nenhuma palavra é já para ti e assim nenhuma tua é para os outros. Mas a tua língua move-se ainda, entre ela e a palavra, mesmo que seja só um nome, há uma ligação que nada pode cortar. Fala para dentro. Chama para dentro. E poderás circular entre os homens sem que te metam num manicómio

de: Vergílio Ferreira


Lentamente, silencioso, fui-me colando todo a mim mesmo, até ao mais intimo de mim.
Incha-me o crânio, devagar, um vapor quente e sanguíneo.
Para um centro imprevisível, em giros rápidos de aço, 
uma fina teia radia-me das unhas, 
das mãos e dos pés.
Voga agora, na água límpida da memória, 
uma imagem branca e dormente.
Depois esvai-se.
Depois regressa.
Depois desaparece definitivamente, mas deixa, 
ó Deus, deixa uma presença vivíssima,
vivíssima,
vivíssima,
Como a chaga que nos fica de um ferro em brasa.
bruscamente, porém, tudo em mim rebrilha incandescente.
Uma estrídula gritaria levanta-se-me no cérebro, 
um guincho agudo fura-me a cabeça de um ouvido ao outro, 
e um murro surdo, absoluto, abate-me finalmente.
Dobro-me sobre mim, rendido, e ali me deixo ficar, 
longamente esquecido da vida, de tudo...

QUE ACONTECEU?!...
(...)

de: Vergílio Ferreira




05 abril 2012

ESTRELAS PARTIDAS

 

Vou esperar as estrelas partidas
ver como se te apagam nos dedos
ver da luz se chega se está bem
e depois então és tu

É que agora que largas a voar
e vais ver diferente de todos nós
eu posso sabes se calhar esquecer

Mas dás asas com tanta força tu
os dedos são tão longos e escuros
passando nos meios a sobra

As estrelas partidas arranjadas no ar
ver horizontal e extremadamente
tudo assim disposto e memorável

Hugo Milhanas Machado