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22 fevereiro 2014

VAI. CORRE.



"QUEIMADA" de: Raquel Martins


VAI.
CORRE.
CONTEMPLA VÁRIAMENTE AS ESTRELAS.
VERÁS COMO A LUA AS ENVOLVE.

NO LAGO DA NOITE
OS DEUSES SÃO MAIS FEROZES

Maria Azenha
[terceira folha in: De Amor Ardem os Bosques]



14 janeiro 2014





abriu no peito um vale para deixar correr o rio do coração
bebeu pela taça dos lírios o pólen exíguo da neblina
semeou nas janelas do aposento partes do corpo:
a boca, o estômago, os pés, os ramos dos dedos
que suportavam infatigáveis navios
e iam e vinham dos espelhos e regressavam do mar como cedros a
pique

pequenas ondas espalhadas pelo chão do quarto
erguiam-se e cantavam. eram tecidas por uma aranha azul.

de: Maria Azenha




13 agosto 2013

in: DE AMOR ARDEM OS BOSQUES



XII
No lago mais profundo repousa a jóia do bosque.
é esta a última palavra

[do coração dos bosques pag. 97]
Maria Azenha

II
Olhou o pão na mesa e deixou cair
as mãos como sementes
para que tudo crescesse a partir
do chão

olhou o mar

e viu as lágrimas 
das trevas
iluminadas pelo firmamento

depois sentiu que se fechasse os olhos
por um pequeno instante
tudo voltaria ao caos

as mães têm as mãos grandes

[das clareiras dos bosques pag. 73]


VIII
O poeta sabe como Deus transbordou do escuro
e nasceu de uma nuvem de solidão e exílio

[como respirou e dormiu
e estendeu os braços ao longo dos rios]

com árvores e ombros
e mãos para lavrar o azul
partiu-se
em mil bocados.

que neles ninguém se fira

[das sombras dos bosques pag. 63]
Maria Azenha




"conciliando o sonho"
Vladimir Kush



18 fevereiro 2013

DAS CLAREIRAS DOS BOSQUES

 
 
III

faz tempo as algas tinham braços
e reflectiam as alas da água em flores marinhas
inebriadas em redor pelo fósforo dos peixes
direccionavam faróis para as gemas das ilhas

faz tempo cruzavam a eternidade as bagas e os corais
em voos desdobrados, cumplices dos lagos,
e vinham dar à praia fadas e sereias em colmeias
fundeadas por âncoras e límpidas auroras

faz tempo os amantes vinham partindo e chegando à nave do dia
pelas rosas da tarde em dulcíssimos navios
e recolhiam a luz do silêncio imortal entre o centeio e o milho

faz tempo os humanos percorriam as pálpebras dos bosques
entre folhas de sol e abrigos de mel
[e eram estrelas]
ampliavam uma nova língua

se não fossem as algas que saberíamos da alegria?


Maria Azenha
in: De Amor Ardem os Bosques
 
 

 
 

02 fevereiro 2013

NA PAREDE DA SALA...





na parede da sala o luar faz descer a sua pequena música
em sereias e medusas no anel brando da noite.
é então que estremece, cintilante na areia, a praia nua
em seus cavalos brancos de sombras e de espuma.
 
e unindo uma a uma suas crinas de brancura
onde pousam abelhas de prodígio por detrás das dunas
o vento e o mar em vultos me procuram, não se cruzam.
no centro permanecem sem imagem nem colunas.
 
e espelhos de silêncio e ausência me recusam
e muros de navios me reflectem e ressoam
na sala atravessada por um fio a prumo
que corre eternamente para o fim do mundo

Maria Azenha
[V - das clareiras dos bosques






28 outubro 2012

in: DE AMOR ARDEM OS BOSQUES



há lembranças que matam
há bosques onde os amados vivem para sempre
 
há um cutelo de água nas fontes
quando as palavras voam para muito longe
 
há a noite
e os cães que dormem em cordas de sono
em vogais de vento e abandono
 
há barcos que deslizam no horizonte
muito lentamente
e as estrelas descem por dentro dos mastros
na noite
 
há uma orquídea azul que se suicida
onde começa o teu nome

**

há um relâmpago martirizado em meu peito de cambraia
que teima em brotar laranjas de fogo

há um peixe alucinado que canta desmedido
em um céu de cisternas e serpentes

é dezembro, e os girassóis recolhem-se para dentro
- atravessam meu peito de agonia e ouro -
rasgam lenços de seda em minha casa d'Oriente

há sinos de sangue em molduras de sombra e vento
o Sol ilumina um jardim oculto
que te transforma em fonte
 
Maria Azenha