Meninas, pequenos, pequeninos.
Sentimo-nos coisas poucas
perante a glória descarada de quem amamos.
Quem ama não passa de um
recém-nascido, que recém-nasce todos os dias.
Hoje não é diferente.
Hoje é o dia, no ano de 2000, em que tive a sorte de me
casar com a Maria João, cega, linda e enganada nesse momento como até agora,
graças a um Deus que privilegia os que não merecem.
Os casamentos estão para os números e para a sorte como as rifas e as lotarias.
Havendo amor, passa-se a semana a pensar que se vai ganhar e depois há um dia
em que se perde - quando há discussões - seguido de mais uma semana com uma
nova esperança. O amor está lá sempre, quer se ganhe ou se perca. O amor corresponde
ao jogo em si.
Há jogos sucessivos com resultados diferentes, mas o jogo é
sempre o mesmo. Aos jogadores apenas se pede o impossível, facilmente
concedido: acreditar que podem ganhar.
Estamos casados há 11 anos. Passaram num
instante. Pareceram mais do que 11 dias, mas menos, muito menos do que 11
meses.
Dizem que os números não querem dizer nada. Mas querem. Nós é que nem sempre
queremos que eles nos digam o que querem dizer. A Maria João e eu somos o
número 11. Cada um, para ser 11, é inseparável. Sozinho, eu era só um.
Meramente somados, não seríamos mais do que dois. Onze somos nós, um ao lado do
outro, um número único, que tem uma tabuada reconfortantemente previsível,
geminada e ecóica.
[…]!