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07 abril 2012

O ABANDONO. O VAZIO. A INDIFERENÇA. (...)




(...) Tudo está feito, o que tinhas a dizer já o disseste, os que dialogavam contigo para estarem de acordo ou te insultarem foram recolhendo ao silêncio definitivo. É a hora de te ires calando também, recolheres à aposentação de falares e de ouvires. Porque nenhuma palavra é já para ti e assim nenhuma tua é para os outros. Mas a tua língua move-se ainda, entre ela e a palavra, mesmo que seja só um nome, há uma ligação que nada pode cortar. Fala para dentro. Chama para dentro. E poderás circular entre os homens sem que te metam num manicómio

de: Vergílio Ferreira


Lentamente, silencioso, fui-me colando todo a mim mesmo, até ao mais intimo de mim.
Incha-me o crânio, devagar, um vapor quente e sanguíneo.
Para um centro imprevisível, em giros rápidos de aço, 
uma fina teia radia-me das unhas, 
das mãos e dos pés.
Voga agora, na água límpida da memória, 
uma imagem branca e dormente.
Depois esvai-se.
Depois regressa.
Depois desaparece definitivamente, mas deixa, 
ó Deus, deixa uma presença vivíssima,
vivíssima,
vivíssima,
Como a chaga que nos fica de um ferro em brasa.
bruscamente, porém, tudo em mim rebrilha incandescente.
Uma estrídula gritaria levanta-se-me no cérebro, 
um guincho agudo fura-me a cabeça de um ouvido ao outro, 
e um murro surdo, absoluto, abate-me finalmente.
Dobro-me sobre mim, rendido, e ali me deixo ficar, 
longamente esquecido da vida, de tudo...

QUE ACONTECEU?!...
(...)

de: Vergílio Ferreira