Este poema de amor
é bilhete sem destino
Não sei a quem entregá-lo
Não há nome no envelope
nem rua, nem direção
Ternura jogada fora
saudade apenas, sem fatos
que se possam recordar
este poema de amor
reincidente e insano
joga sal no oceano
transpira lençóis de insônia
esboça os traços de um rosto
traceja a forma de um corpo
apaga, torna a fazer
Vento vago que levanta
e logo depois deposita
palavras soltas, papel
este poema,
eu mesma,
este poema é ninguém.
Lá na minha rua eu podia ser tudo... Bandida, mocinha, princesa, rainha... E quando vencia qualquer brincadeira, Eu era aclamada de "a heroína"!
Lá na minha rua eu podia ser tudo Ter asas, voar, ser um passarinho... Em árvores pousar, construir o meu ninho, Cair, machucar e voltar a sonhar.
Ser bruxa malvada, uma feiticeira, Pular e gritar ao redor da caldeira Ver olhos de espanto de uma criançada, Fugindo correndo da tal caldeirada.
Lá da minha rua eu podia ver tudo, Um céu pintadinho de estrelas-cadentes, A lua pertinho do final da rua, Piscando, sorrindo, mostrando-se nua.
Lá na minha rua deixei registrada Uma infância feliz, onde podia tudo, Rua de pedrinhas, de luz, de brilhantes... Rua dos meus sonhos, meu marco, meu mundo!!!
Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...
A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.
Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.
E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino
**
Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?
Chove...
Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.