15 novembro 2012





quando as aves falam com as pedras 
e as rãs com as águas 

- é de poesia que estão falando

Manoel de Barros






11 novembro 2012

- AS PALAVRAS FALHAM, E ESSA É A COMUNICAÇÃO





Aqui o mar é sono perpétuo, 
câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo
das minhas cedências. Recordo o sabor 
salino de outras perdas, casas tombadas
das quais sou solitária ruína.


Eu, que tenho dado à insónia,
embebo-me agora nas águas de outro dialecto

- as palavras falham, e essa é a comunicação.



de: Vasco Gato






09 novembro 2012



Este poema de amor
é bilhete sem destino
Não sei a quem entregá-lo
Não há nome no envelope
nem rua, nem direção
Ternura jogada fora
saudade apenas, sem fatos
que se possam recordar
este poema de amor
reincidente e insano
joga sal no oceano
transpira lençóis de insônia
esboça os traços de um rosto
traceja a forma de um corpo
apaga, torna a fazer
Vento vago que levanta
e logo depois deposita
palavras soltas, papel
este poema,
eu mesma,
este poema é ninguém.
 
de: Ana Mariano
 
 
 
 
 

05 novembro 2012

MÚSICOS DE RUA


as duas faces da moeda
[não resisti a este poema que achei encantador
encontrei-o por mero acaso, na net,
não sei o nome da autora]

Lá na minha rua eu podia ser tudo...
Bandida, mocinha, princesa, rainha...
E quando vencia qualquer brincadeira,
Eu era aclamada de "a heroína"!

Lá na minha rua eu podia ser tudo
Ter asas, voar, ser um passarinho...
Em árvores pousar, construir o meu ninho,
Cair, machucar e voltar a sonhar.

Ser bruxa malvada, uma feiticeira,
Pular e gritar ao redor da caldeira
Ver olhos de espanto de uma criançada,
Fugindo correndo da tal caldeirada.

Lá da minha rua eu podia ver tudo,
Um céu pintadinho de estrelas-cadentes,
A lua pertinho do final da rua,
Piscando, sorrindo, mostrando-se nua.

Lá na minha rua deixei registrada
Uma infância feliz, onde podia tudo,
Rua de pedrinhas, de luz, de brilhantes...
Rua dos meus sonhos, meu marco, meu mundo!!!









02 novembro 2012

ENTREI NO CAFÉ COM UM RIO NA ALGIBEIRA




Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino


**


Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira
[1900-1985]






28 outubro 2012

in: DE AMOR ARDEM OS BOSQUES



há lembranças que matam
há bosques onde os amados vivem para sempre
 
há um cutelo de água nas fontes
quando as palavras voam para muito longe
 
há a noite
e os cães que dormem em cordas de sono
em vogais de vento e abandono
 
há barcos que deslizam no horizonte
muito lentamente
e as estrelas descem por dentro dos mastros
na noite
 
há uma orquídea azul que se suicida
onde começa o teu nome

**

há um relâmpago martirizado em meu peito de cambraia
que teima em brotar laranjas de fogo

há um peixe alucinado que canta desmedido
em um céu de cisternas e serpentes

é dezembro, e os girassóis recolhem-se para dentro
- atravessam meu peito de agonia e ouro -
rasgam lenços de seda em minha casa d'Oriente

há sinos de sangue em molduras de sombra e vento
o Sol ilumina um jardim oculto
que te transforma em fonte
 
Maria Azenha






24 outubro 2012

CONVITE

 
 
 
 
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft