18 janeiro 2013

NÃO COLHER AS MÃOS



imagem daqui:
http://daliteratura.blogspot.pt/2012/01/rui-costa-1972-2012.html

não colher as mãos, alimentar os objectos. 
tocá-los devagar, deixando o fio correr desde 
o ar até à ponta dessa sombra onde repousa 
o mundo. tenho a certeza de que algo se 
mexe no silêncio. olho uma vez. olho uma vez. 
sei que falas com as coisas. que tens um pacto 
com as rãs, outros pequenos animais, certos verdes 
hereditários gestos. que nem que quisesses me 
poderias contar. e sei de tudo limpo e é para ti que 
inclino as mãos quando percorro as cidades e as 
esqueço. esta pequena saudade é uma floresta 
de silêncios. sou capaz de adormecer sobre o fogo. 

RUI COSTA
in: “a nuvem prateada das pessoas graves”




30 dezembro 2012

FELIZ ANO NOVO!





UM DIZER AINDA PURO

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato
[um mover de mão]







06 dezembro 2012

POEMA e... FELIZ NATAL!

ARTE POÉTICA

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?,que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
José Luís Peixoto



02 dezembro 2012

DÁ-ME ALGUMA DA TUA PELE TERRA

 
 

 
 
 dá-me alguma da tua pele terra
tu que não me pedes nada e
me apareces de noite vestida de
nudez pele terra e me abres caminhos
para que te conheça dá-me algum
do silêncio que me dás para que
nele te diga pele terra se de noite
me apareces iluminada de muitos
pássaros a nascer e a voar a
nascer e a voar silêncio pele terra
para que te conheça dá-me o que
dás a todos e nunca deste senão
a mim pele terra tu que me dás
os gestos das minhas mãos
a música das minhas palavras que
me dás pele terra esconde-te
dentro de mim

José Luís Peixoto
 in: "A Criança em Ruínas"
 
 
 
 
 

30 novembro 2012

LYA LUFT


 
  
Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Mordo devagar
o fruto desta inquietação.
(Alguém me inventa e desinventa
como quer: talvez seja esta a minha condição.)

Bastaria um momento de silêncio
para eu ser feliz:
mas do fundo do palco
uma voz me chama.
Serás tu, amor,
ou é a morte, apenas, que reclama?

Lya Luft
 
fonte:
 
 
 

TEATRO DE SOMBRAS

Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Alguém me inventa e desinventa
como quer:
talvez seja esta a minha condição.

Alguém dirige o teatro de sombras
no qual fui ré setenciada.
Finjo entender de tudo:
ando de um lado e outro,
faço gestos com a mãos,
cuspo as sementes do fruto
entalado na garganta
com um grito: Alguém aí pode me ouvir?

Ninguém reage, ninguém tenta aplaudir:
nesse reino todos usam disfarces,
menos a solidão.

Lya Luft
 
fonte:

 
 
 
obs: eu apenas conhecia a segunda versão deste poema, estranhei encontrar a primeira que, confesso, desconhecia, deixo as duas aguardando ensinamento.
 
 
 

23 novembro 2012





MOVIMENTO

movimento de alma 
silêncio, emoção 
de doçura meia, 
essa tua palma 
sobre a minha mão 
o que tem que eu leia? 

para lá da floresta 
onde as coisas são 
sem minha licença, 
mais linear que esta 
confusa razão 
da tua presença 

não há outro sim 
que não tem dizer 
e é mais movimento? 
qualquer coisa assim 
como um tempo sem fim 
como um espaço sem tempo 

Mário Cesariny 






20 novembro 2012

REGRESSO À CAVERNA DE PLATÃO



no conflito entre o poeta e o filósofo,
ensina Platão que não se deve fixar o sol
porque, depois de o fazer, ofuscados
pelo brilho intenso, não nos habituamos
aos objectos comins, e assim nos perdemos
das coisas reais, após a revelação
da verdade celeste.

ée então que o homem, ainda com o peso
da luz no espírito, tacteia em roda, procurando
a saída, e encontrando apenas as sombras,
que o empurram de um para outro lado,
como um simples boneco, fechando-o
para o mundo inteligivel, de que sente
a nostalgia e o desejo.

por um lado, o filósofo compreende
esta situação, e desenvolve um raciocínio
cujo enncadeado dialéctico o conduz a uma
alegoria: prisioneiro expulso da luz
pelo excesso de luz, o homem sente mais
profundamente a sua miséria, agora que
descobriu a obscuridade e os limites
do mundo, na gruta que o prende. é aqui,
no entanto, que o poeta perturba
a lógica do pensamento.

com efeito, o poema corresponde à luz
do sol, com a sua plena revelação do absoluto,
sem provocar a cegueira. Pelo contrário,
é nele que nos movemos à vontade, sem precisarmos
de saír do mundo para deescobrir a sua evidência,
por outro lado, as suas imagens são um reflexo luminoso
de tudo o que, na realidade, nos parece incompleto
e sombrio. «então», diz o poeta,
«para quê fixar o sol, se as minhas palavras
reproduzem a sua luz?»

«por isso», responde o filósofo, «não tens lugar
na minha república. não convém dar a vista
aos cegos, quando a minha função é guiá-los,
nem dizer-lhes que o sol está ao alcance da mão,
quando é através de mim que o devem
atingir.»

por vezes, o conflito de interesses
sobrepõe-se à razão; e, no erro do filósofo,
a sombra do mundo do mundo impede que a luz da verdade
se imponha no espírito, fazendo com que
a falsa dialéctica se desenvolva até ao fim
mais absurdo.

Nuno Júdice
«Geometria Variável»