14 fevereiro 2013

DA VOZ DAS COISAS

 
 

 
Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

 Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.
 
Fiama Hasse Pais Brandão
  

 
 

11 fevereiro 2013

ITACA



Martha Graham

Quando as luzes da noite se reflectirem nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto

de: Sophia de Mello Breyner





02 fevereiro 2013

NA PAREDE DA SALA...





na parede da sala o luar faz descer a sua pequena música
em sereias e medusas no anel brando da noite.
é então que estremece, cintilante na areia, a praia nua
em seus cavalos brancos de sombras e de espuma.
 
e unindo uma a uma suas crinas de brancura
onde pousam abelhas de prodígio por detrás das dunas
o vento e o mar em vultos me procuram, não se cruzam.
no centro permanecem sem imagem nem colunas.
 
e espelhos de silêncio e ausência me recusam
e muros de navios me reflectem e ressoam
na sala atravessada por um fio a prumo
que corre eternamente para o fim do mundo

Maria Azenha
[V - das clareiras dos bosques






27 janeiro 2013

QUANDO TU NÃO ESTÁS



 

Quando aqui não estás 
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar 
continua fechada só nos sonhos

me ergo 
abro-a 
deixo a frescura e a força da manhã 
escorrerem pelos dedos prisioneiros 
da tristeza

acordo 
para a cegante claridade das ondas 
um rosto desenvolve-se nítido 
além 
rasando o sal da imensa ausência 
uma voz

quero morrer 
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado 
perscruta esse coração
esse 
solitário caçador 

al Berto







18 janeiro 2013

NÃO COLHER AS MÃOS



imagem daqui:
http://daliteratura.blogspot.pt/2012/01/rui-costa-1972-2012.html

não colher as mãos, alimentar os objectos. 
tocá-los devagar, deixando o fio correr desde 
o ar até à ponta dessa sombra onde repousa 
o mundo. tenho a certeza de que algo se 
mexe no silêncio. olho uma vez. olho uma vez. 
sei que falas com as coisas. que tens um pacto 
com as rãs, outros pequenos animais, certos verdes 
hereditários gestos. que nem que quisesses me 
poderias contar. e sei de tudo limpo e é para ti que 
inclino as mãos quando percorro as cidades e as 
esqueço. esta pequena saudade é uma floresta 
de silêncios. sou capaz de adormecer sobre o fogo. 

RUI COSTA
in: “a nuvem prateada das pessoas graves”




30 dezembro 2012

FELIZ ANO NOVO!





UM DIZER AINDA PURO

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato
[um mover de mão]







06 dezembro 2012

POEMA e... FELIZ NATAL!

ARTE POÉTICA

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?,que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
José Luís Peixoto