18 fevereiro 2013

DAS CLAREIRAS DOS BOSQUES

 
 
III

faz tempo as algas tinham braços
e reflectiam as alas da água em flores marinhas
inebriadas em redor pelo fósforo dos peixes
direccionavam faróis para as gemas das ilhas

faz tempo cruzavam a eternidade as bagas e os corais
em voos desdobrados, cumplices dos lagos,
e vinham dar à praia fadas e sereias em colmeias
fundeadas por âncoras e límpidas auroras

faz tempo os amantes vinham partindo e chegando à nave do dia
pelas rosas da tarde em dulcíssimos navios
e recolhiam a luz do silêncio imortal entre o centeio e o milho

faz tempo os humanos percorriam as pálpebras dos bosques
entre folhas de sol e abrigos de mel
[e eram estrelas]
ampliavam uma nova língua

se não fossem as algas que saberíamos da alegria?


Maria Azenha
in: De Amor Ardem os Bosques
 
 

 
 

14 fevereiro 2013

DA VOZ DAS COISAS

 
 

 
Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

 Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.
 
Fiama Hasse Pais Brandão
  

 
 

11 fevereiro 2013

ITACA



Martha Graham

Quando as luzes da noite se reflectirem nas águas verdes de Brindisi
Deixarás o cais confuso onde se agitam palavras passos remos e guindastes
A alegria estará em ti acesa como um fruto
Irás à proa entre os negrumes da noite
Sem nenhum vento sem nenhuma brisa só um sussurrar de búzio no silêncio
Mas pelo súbito balanço pressentirás os cabos
Quando o barco rolar na escuridão fechada
Estarás perdida no interior da noite no respirar do mar
Porque esta é a vigília de um segundo nascimento

O sol rente ao mar te acordará no intenso azul
Subirás devagar como os ressuscitados
Terás recuperado o teu selo a tua sabedoria inicial
Emergirás confirmada e reunida
Espantada e jovem como as estátuas arcaicas
Com os gestos enrolados ainda nas dobras do teu manto

de: Sophia de Mello Breyner





02 fevereiro 2013

NA PAREDE DA SALA...





na parede da sala o luar faz descer a sua pequena música
em sereias e medusas no anel brando da noite.
é então que estremece, cintilante na areia, a praia nua
em seus cavalos brancos de sombras e de espuma.
 
e unindo uma a uma suas crinas de brancura
onde pousam abelhas de prodígio por detrás das dunas
o vento e o mar em vultos me procuram, não se cruzam.
no centro permanecem sem imagem nem colunas.
 
e espelhos de silêncio e ausência me recusam
e muros de navios me reflectem e ressoam
na sala atravessada por um fio a prumo
que corre eternamente para o fim do mundo

Maria Azenha
[V - das clareiras dos bosques






27 janeiro 2013

QUANDO TU NÃO ESTÁS



 

Quando aqui não estás 
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar 
continua fechada só nos sonhos

me ergo 
abro-a 
deixo a frescura e a força da manhã 
escorrerem pelos dedos prisioneiros 
da tristeza

acordo 
para a cegante claridade das ondas 
um rosto desenvolve-se nítido 
além 
rasando o sal da imensa ausência 
uma voz

quero morrer 
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado 
perscruta esse coração
esse 
solitário caçador 

al Berto







18 janeiro 2013

NÃO COLHER AS MÃOS



imagem daqui:
http://daliteratura.blogspot.pt/2012/01/rui-costa-1972-2012.html

não colher as mãos, alimentar os objectos. 
tocá-los devagar, deixando o fio correr desde 
o ar até à ponta dessa sombra onde repousa 
o mundo. tenho a certeza de que algo se 
mexe no silêncio. olho uma vez. olho uma vez. 
sei que falas com as coisas. que tens um pacto 
com as rãs, outros pequenos animais, certos verdes 
hereditários gestos. que nem que quisesses me 
poderias contar. e sei de tudo limpo e é para ti que 
inclino as mãos quando percorro as cidades e as 
esqueço. esta pequena saudade é uma floresta 
de silêncios. sou capaz de adormecer sobre o fogo. 

RUI COSTA
in: “a nuvem prateada das pessoas graves”




30 dezembro 2012

FELIZ ANO NOVO!





UM DIZER AINDA PURO

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato
[um mover de mão]