19 maio 2013

 
 


e tu,
vais-te embora? vais-te embora?...

não,
não te vais embora: fico contigo…

deixas-me nas mãos a tua alma,
como um casaco.


de:  Marguerite Yourcenar
aqui: http://falsolugar.blogspot.pt/2007/04/





 
 

14 maio 2013

RESISTIR





 dobrar na boca o frio da espora
calcar o passo sobre lume
abrir o pão a golpes de machado
soltar pelo flanco os cavalos do espanto
fazer do corpo um barco e navegar a pedra
regressar devagar ao corpo morno
beber um outro vinho pisado por um astro

 possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.

 Joaquim Pessoa





10 maio 2013

ORIENTE



 

manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda (se puderes)
e se puderes mais, manda violetas

 (margaridas talvez, caso quiseres)
manda-me osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(em pentagrama, asas transparentes)

 manda-me tudo pelo vento:
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingido de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontrares)

de: Caio Fernando Abreu
 
 
 
 
 
 

05 maio 2013

MÃES, QUE FOMOS, QUE SOMOS, QUE SEREMOS!...

 
 
 
SILOGISMOS

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaços e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

De: Ana Luisa Amaral
 
 
 
 
 

03 maio 2013

VOZES MINHAS




O súbito fraseador que mimava
a sua fala pela do vento
não me disse Heraclito fui,
tal como eu o pensei.
Disse só deste lado do recorte
da serra sopra mais.
Ouvir por dentro. Clarear
traços que nos separam
da figura falante. O amanho
da Terra liga-nos.
Ouvinte do vento, não me
disse como eu: Verdade
e substância, na primeira apanha.
Quietude. Êxtase, na eclosão.

Cavou ao longo da esticada corda
que orienta as leiras. Esteve
em movimento ali um dia: Ó terra,
tudo está nos sentidos
antes do senso, voz certa,
som áspero, vento de rajadas grossas.

Fiama Hasse Pais Brandão
"Três Rostos - Ecos"


25 abril 2013

QUEM AMA A LIBERDADE...


Cravo de Abril
[imagem da net]

Quem ama a liberdade conhece que é idêntica
a verdade e a não-verdade o ser e o vazio
e por isso na sua celebração a metáfora expande-se
na liberdade de ser a ténue sabedoria
desse momento e só desse momento em que o arco cresce
Há então que procurar a chuva dessa nuvem
ou desdizê-la não para o nosso olhar
mas para um outro rosto de areia que cresce no vazio
e poderá ser de pedra ou de ouro ou só de uma penugem
O poema é o encontro destas duas faces
de nenhuma substância quando no vazio do céu
os anjos se diluem com as mãos despojadas

António Ramos Rosa
[As espirais do silêncio]






18 abril 2013

DOS PINHAIS






ondulando, os pinhais
quiseram ser o mar.
murmurando, quiseram ser
o vento. mas somente
no meu ouvido eram vento,
nos meus olhos, mar.

e hoje, ali na encosta,
pinhais bordejam
o mar, sustêm o vento.
 
Fiama Hasse Pais Brandão