24 setembro 2013

À SOMBRA DE UMA ÁRVORE O TEMPO JÁ NÃO É O TEMPO MAS A MAGIA DE UM INSTANTE QUE COMEÇA SEM FIM



ANTÓNIO RAMOS ROSA



Cada árvore é um ser para ser em nós
Para ver uma árvore não basta vê-la
A árvore é uma lenta reverência
uma presença reminiscente
uma habitação perdida
e encontrada
À sombra de uma árvore
o tempo já não é o tempo
mas a magia de um instante que começa sem fim
a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas
e de sombras interiores
nós habitamos a árvore com a nossa respiração
com a da árvore
com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses


in: CADA ÁRVORE É UM SER PARA SER EM NÓS
  [2002]






o mundo cabia inteiro na sua mão




13 agosto 2013

in: DE AMOR ARDEM OS BOSQUES



XII
No lago mais profundo repousa a jóia do bosque.
é esta a última palavra

[do coração dos bosques pag. 97]
Maria Azenha

II
Olhou o pão na mesa e deixou cair
as mãos como sementes
para que tudo crescesse a partir
do chão

olhou o mar

e viu as lágrimas 
das trevas
iluminadas pelo firmamento

depois sentiu que se fechasse os olhos
por um pequeno instante
tudo voltaria ao caos

as mães têm as mãos grandes

[das clareiras dos bosques pag. 73]


VIII
O poeta sabe como Deus transbordou do escuro
e nasceu de uma nuvem de solidão e exílio

[como respirou e dormiu
e estendeu os braços ao longo dos rios]

com árvores e ombros
e mãos para lavrar o azul
partiu-se
em mil bocados.

que neles ninguém se fira

[das sombras dos bosques pag. 63]
Maria Azenha




"conciliando o sonho"
Vladimir Kush



03 agosto 2013

in: ÂMAGO

 
  
 
amor é o olhar total, que nunca pode ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão só próprio e bastante, em si mesmo absoluto e táctil,
que me cega, como a chuva cai na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.



fui criança, indo por um carreiro,
a caminho do mar, mão na outra mão,
entre árvores, pedras, insectos e aves.
toda a natureza me coube nas pupilas,
mestra de sentimentos, e eu discípula.
e, se fechava os olhos, ela punia-me
com o silêncio cruel das ondas,
a mudez imerecida dos insectos,
e a distância das aves, que doía.
se os abria, tudo me rodeava,
apaziguado e meu,
mas a mão que me trazia a mão
puxava-me para a luz de cada dia.

 
Fiama Hasse Pais Brandão
[cenas vivas]
 
 
 
 
 

25 julho 2013

FIAMA

  

 
 
O NOME LÍRICO
 
Esta manhã
hoje
é um nome
 
Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca
 
Uma palavra
palavra só
a ergue
 
Com um nome
amanhece
clareia
 
Não do sol
mas de quem
a nomeia
 
 
 
 

20 julho 2013

in: O VINHO E A LIRA


 
Vladimir Kush
 
 
venho simplesmente dizer
que uma laranja é uma laranja
e comove saber que não é ave
 
se o fosse não seriam ambas
uma só coisa volátil e doce
de que a ave é o impulso de partir
e laranja o instinto de ficar.
não sei de nada mais eterno
do que haver sempre uma só coisa
e ela ser muitas e diferentes
e cada coisa ternamente ocupar
só o espaço que pode rodeada
pelo espaço que a pode rodear.
 
sei que depois de laranja
a laranja pode ser até
mesmo laranja se necessária
mas cada vez que o for
sê-lo-á rigorosamente
como se de laranja fosse
a exacta fome inadiável.
 
de ser laranja gomo a gomo
o íntimo pomo se enternece
e não cabe em si de amor
embriagada de saber
que a sua morte nos será doce.
 
de: Natália Correia


 
 

16 julho 2013

 
 
A MULHER
 
[...]
sob a melhor luz, o seu melhor lado.
a despir-se de vestidos feitos de tudo
e à mão, feitos por ela. carmim
e amarelo torrado: as cores que prefere,
salpicadas de brilhos imensos e enormes
cornucópias. em volta do pescoço,
pequenas contas de ambar e dois
guizos num dos tornozelos. um toque
de coqueteria, um outro de embaraço.
 
quero uma mulhar assim, de silêncios
venenosos, que me morda o tendão
do ombro e a língua, e abuse
de declarações de guerra e paz,
 vá para o inferno e regresse
no meio de um mar de boatos,
e me arraste em jogos de malícia,
me esconda o coração e me deixe
doido dias inteiros atrás de pistas
e coordenadas.
 
não quero uma mulher explicada,
prefiro o assombro. antes aturar
mistérios, teimas, transes e jejuns,
mesmo às vezes a troça e o desprezo,
e que quando se sinta enfastiada
fuja sem aviso ou se feche parindo
a escuridão.
 
que me adore e se farte, me empurre
do alto das escadas, e se ria perdidamente
ou chore e me asfixie devagarinho
com os primeiros cabelos que lhe
nasçam brancos. quero até esse dia
em que se chegará tristemente
para pedir-me a mão logo depois
que o seu rosto se retire para sempre
de todos os espelhos.
 
no fim, nem me importa
que nunca venha a cruzar-se comigo,
que isto eventualmente ainda seja eu
a roubar acessórios em lojas
de senhora. pelo menos não será
uma coisa que se explique nem alguém
que tenha a descortesia de dizer por aí
que chegámos a um entendimento.
 
 
de: Diogo Vaz Pinto
in: RESUMO a poesia em 2011
[antologia - Documenta - FNAC]
 
 
 
 
 
 
 
 

11 julho 2013

A NÚVEM PRATEADA DAS PESSOAS GRAVES

 
 
Raquel Martins

Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.
 
Rui Costa