05 maio 2014

A MANHÃ





a manhã estática parada 
entre o Tejo azul e a torre branca
que branca e barroca sobe das águas

manhã acesa de silêncio e de louvor
na breve primavera violenta

assim a minha vida era calma
de repente se tornou ânsia e saudade
mas a brisa da varanda é doce e suave
um pássaro canta porque alguém regou

de: Sophia de Mello Breyner




27 abril 2014

HISTÓRIA IMPROVAVEL





Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

in: No Tempo Dividido


Sophia de Mello Breyner Andreson




23 abril 2014

EXÍLIO





QUANDO A PÁTRIA QUE TEMOS NÃO A TEMOS 
PERDIDA POR SILÊNCIO E POR RENÚNCIA 
ATÉ A VOZ DO MAR SE TORNA EXÍLIO 
E A LUZ QUE NOS RODEIA É COMO GRADES

de: Sophia de Mello Breyner Andresen






18 abril 2014

PÁSCOA FELIZ



imagem do google

foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
e algumas palavras. poucas,
ditas como por acaso.

eram contudo palavras de amor.
não propriamente ditas,
antes adivinhadas. ou pressentidas.
como folhas verdes de passagem.
um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.
foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
por isso brilhavam. como folhas
molhadas.

de: Eugénio de Andrade, em
"Os sulcos da Sede"




10 abril 2014

CANÇÃO DA MULHER QUE ESCREVE



rafal olbinski


Não perguntem pelo meu poema:
Nada sei do coração do pássaro
Que a música inflama.

Não queiram entender minhas palavras:
Não me dissequem, não segurem entre vidros
Essas canções, essas asas, essa névoa.

Não queiram me prender como a um insecto
No alfinete da interpretação:
Se não podem amar o meu poema, deixem
Que seja somente um poema.

(Nem eu ouso ergue-lo entre meus dedos e perturbar a sua liberdade). 

De: Lya Luft





29 março 2014

O BOSQUE CINTILANTE #12





Estou perdido entre uma sombra
e uma amendoeira,
mas estar perdido não significa
não conhecer a beleza do que passa
no instante em que passas
ou estar mais próximo da desolação
neste vestígio antiquíssimo da desolação.

A sombra de que falo
vem de um lugar onde o coração
está próximo,
de um lugar onde a inocência pulsa ainda
sob a terra,
de um lugar onde os lábios pronunciam
a subtileza de um nome
com o teu nome.

Porque tu és essa ave
que o vento reconhece e agita
o coração,
a árvore branca e poderosa
a que os pássaros regressam,
a árvore que cintila na escuridão
e pelo subtil estremecimento da noite é o último refúgio
de quem se encontra perdido
entre a sombra de uma amendoeira
com o teu nome,
algures no mundo,
neste vestígio antiquíssimo da desolação.

de: Amadeu Baptista
BOSQUE CINTILANTE





25 março 2014

EU CANTO A CHUVA, A TERRA, O VERME





toda a chuva a cair me torna grata
por ela e pela que tem caído sobre mim
nos anos sem tacto, sem vista, sem olfacto.
aqui bebo-a misturada com os resíduos
que o vento trás do fundo do pomar,
gravetos, folhas e flores perdidas.
o cheiro de uma flor de laranjeira perfumou
esta água, para a ablução dos pés
de um poeta que antes fora nómada.
depois, porque não hei-de vestir-me com a túnica
da chuva, que me envolva como árvores
ou um corpo humano vivo e natural?
dormir, onde esta lama doce e insonora
calidamente me vista e me sepulte?
verme, que constróis o altar da chuva
com os teus pequenos montículos e covas
e sob o córtex da nogueira velha
escondeste a tua vida, como oferenda
que vai ser recolhida pelas mãos
de uma criança que ame os dons naturais;
verme, que sabes que eu outrora
já fui muda, não-gerada e ausente,
mostra-me o que mais sabes da chuva,
como és sinuoso nela, vivente,
e eu que devo fazer na pura terra
contigo, lado a lado, ó laborioso?

de: Fiama Hasse Pais  Brandão [25/5/1994]
in: ÂMAGO antologia







19 março 2014

PAISAGEM






Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas…
O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado…
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol…
Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo…
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro…
Não sei quem me sonho…
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma…

De: Fernando Pessoa






14 março 2014

MAQUINISMO


imagem encontrada na net


[encontrei este conto na revista nº 4, verão de 2013,  da Bertrand.
deixo-o assim, sem palavras minhas, para não estragar o seu sentido de
inquietude e da acutilante realidade dos tempos que correm]

  Pouco mais de trinta anos, a farda regulamentar e um espanto de olhos abertos. Rosto simpático, de marido e talvez pai, de homem que dorme à noite.
   Hão-de as mãos subir ao último instante, uma barreira de osso e pele que não deixe entrar o que os olhos não podem parar.
  Importam tão pouco os olhos.
  Há gritos desordenados por cima das rodas nos carris, são vozes ou o metal dos travões de emergência, um atrito de ferro pensado para atrasar o fim, bondoso e inútil como uma oração.
  Mecânica e morte, uma vontade estúpida de olhar para o relógio que ainda me segura o tempo. Em frente, onde um rosto que não entende, de chegar à noite a casa e Nem sabes o que me aconteceu. Despindo a farda, despindo a carruagem e os pedaços de carne trilhados nas rodas.
  Nem eu entendo, nem eu sei, nem eu vou chegar.
  Queria cantar para dentro mas não há músicas para isto, não me lembro de uma melodia nem a vida a passar. E sempre me juraram que sim, que os anos todos num único segundo, que as tristezas e muito mais as alegrias. Porque raio me juraram sempre?
  É a minha primeira vez e também deve ser a sua. Algum de nós há-de cobrir o rosto antes do fim.
  Tremem-me as pernas ou o chão. Quantos segundos desde que ainda não morri?
  Dois homens em breve desarrumados, um de corpo, o outro só da cabeça.
  Talvez tenha filhos que se chamem Paula e Sebastião. O que foi? Não foi nada, dirá o homem de rosto simpático, dedos pelos cabelos muito loiros, mãos por onde a morte não entrou.
  Uma mulher que espere e até ame, Sara, de silêncios e palavras leves. Foi apenas um dia triste, não penses nisso, há quem nasça só para morrer.
  Sou quase um dia esquecido.
  Ninguém me agarra, imagino-lhes as ideias em vai-e-vai, as pernas tensas e as bocas mudas, E se eu... também eles de mulheres e maridos, filhos e casas para pagar. E ninguém me há-de agarrar.
  A travagem aumenta a espera e pode a eternidade ser isto, um desacelerar continuo que não chega para eliminar completamente o movimento.
  Agora ele abre e fecha a boca, não sei se me insulta ou se chama por Deus. Salva? Salta? Mas eu não consigo, nenhuma força para saltar.
  Um rosto de um homem bom, duas rugas fundas que hão-de marcar-lhe a testa, um aviso sério contra o que eu sou.
  Não me lembro de nenhuma canção, nem dos anos, só de algumas palavras que um dia foram versos, «saber do tempo mais do que a espera». Levo pouco e deixo pouco.
  Há-de Sara beijá-lo e trazer-lhe o sono, Há quem nasça só para morrer e agora está morto, uma música de embalar homens com medo, uma voz por cima das rodas e dos gritos aflitos de gente.
  Gostava de conhecer-lhe o nome para lhe dizer adeus, é a minha primeira vez e também deve ser a sua.
  Chegámos ao fim do tempo, e sou eu quem levanta as mãos.

de: Nuno Camarneiro



09 março 2014





se nas mãos encontrássemos os elos
por que tecemos os dias
e com elas revelássemos o Sol
que em nós fez crescer as manhãs

pedir-te-ia um ocaso suspenso entre os dedos
para que nesse instante figurasse o tempo
mediador de vozes e silêncios concretos

agora, desta janela reescrevemos as casas
os sóis de um só fruto de silêncio ainda por dizer

Gisela Ramos Rosa
[Maio de 2009]

in: sulscrito 3, Junho 2010
[antologia da indiferença]






22 fevereiro 2014

VAI. CORRE.



"QUEIMADA" de: Raquel Martins


VAI.
CORRE.
CONTEMPLA VÁRIAMENTE AS ESTRELAS.
VERÁS COMO A LUA AS ENVOLVE.

NO LAGO DA NOITE
OS DEUSES SÃO MAIS FEROZES

Maria Azenha
[terceira folha in: De Amor Ardem os Bosques]



13 fevereiro 2014

QUILÓMETRO DEZASSEIS



Duy Huynh


[...]
à procura, procura do vento. Porque a minha vontade tem o tamanho de uma lei da terra. Porque a minha força determina a passagem do tempo. Eu quero. Eu sou capaz de lançar um grito para dentro de mim, que arranca árvores pelas raízes, que explode veias em todos os corpos, que trespassa o mundo. Eu sou capaz de correr atrás desse grito, à sua velocidade, contra tudo o que se lança para deter-me, contra tudo o que se levanta no meu caminho, contra mim próprio. Eu quero. Eu sou capaz de expulsar o sol da minha pele, de
vencê-lo mais uma vez e sempre. Porque a minha vontade me regenera, faz-me nascer, renascer. Porque a minha força é imortal.

José Luís Peixoto
in: Cemitério de Pianos






ATÉ BREVE






08 fevereiro 2014

COM JOB, SOB O CÉU DE CALAR ALTO



imagem da net

Como um Deus incompreensível
confundido pela própria argumentação
perguntando: «onde é que eu ia?»

Como uma pergunta 
a que só é possível responder
com novas perguntas.

Como vozes ao longe discutindo:
«alguma vez deste ordens à manhã,
ou indicaste à aurora o seu lugar?»

Como um filme
em que tudo acontecesse
na escuridão do espectador.

Como o clarão da noite única
e vazia abraçando pela cintura
a jovem luz do dia.

Manuel António de Pina







30 janeiro 2014

CANTO DOS MEUS PÉS





[...]

também os sentimentos são percursos
que me arrastam entre a alegria e a dor
e, do canto ao silêncio, os meus passos
levaram-me ao escutar das outras vozes.

do amor porque os astros giram
aceito o testemunho em Dante
e do amor do corpo e alma patentes
amei algum leitor mas tarda o uno.

o meu lar funda-se na ideia
do Paraíso perdido tão literária
onde se chega nesta vida infinda
indo pelo atalho a par e passo.

tamarindos encheram o meu caminho
tão cedo junto ao mar em confusão,
vejo as bagas rolarem na ressaca
e as pegadas perderem-se no encalço.

sou a que sente a paisagem
como uma casa duradoura e frágil
e nela envolvo os ombros até a névoa
chegar e me deixar ao abandono.

cumpro por meus pés infirmes
a peregrinação que me foi mandada
por ter perdido a Terra e sentir saudade
até ao grande encontro das estrelas negras.

Fiama Hasse Pais Brandão
in: "ÂMAGO Antologia"

Assírio & Alvim


Fiama





20 janeiro 2014

OIÇO OS MURMÚRIOS DO SOL



Vladimir Kush

"oiço os murmúrios do sol. Saboreio o que sou.
sou renovado pelo espaço, nasço num espaço verde.
o que eu amo está perto entre a terra e o ar."

de: António Ramos Rosa
in "o obscuro"








14 janeiro 2014





abriu no peito um vale para deixar correr o rio do coração
bebeu pela taça dos lírios o pólen exíguo da neblina
semeou nas janelas do aposento partes do corpo:
a boca, o estômago, os pés, os ramos dos dedos
que suportavam infatigáveis navios
e iam e vinham dos espelhos e regressavam do mar como cedros a
pique

pequenas ondas espalhadas pelo chão do quarto
erguiam-se e cantavam. eram tecidas por uma aranha azul.

de: Maria Azenha




11 janeiro 2014

"A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA"



dentro de nós há uma coisa que não tem nome,
essa coisa é o que somos [José Saramago]



Dalí pretendeu expressar a angustia do controle do tempo e da vida. Dizia ele que, sem a ditadura do relógio, os humanos teriam a capacidade de saborear a eternidade, libertando-se dos ditames viciosos que regulam o mundo. Seríamos como os animais, plenos de instinto, desconfiando jamais da existência da própria morte. [...] Dalí diz ter idealizado relógios a derreterem tal e qual o camembert preguiçoso da mesa do almoço. Como se o tempo fosse também ele ductil e macio.

[...]
Dalí: "crês que daqui a três anos te terás esquecido desta imagem?" 
Gala: "é impossivel esquecer mesmo para quem tenha observado uma só vez."

[...] a memória é muito mais importante do que o mito do coração, porque ela é tudo o que somos. Só somos verdadeiramente nós se vistos da janela da memória, é ela que nos define a razão, a emoção, o orgulho ou a culpa. 
[...] a memória é a nossa verdade sem tempo. Sabemos o que é certo ou errado porque essa noção reside algures inculcada dentro de nós. - Com a paixão e o amor é a mesma coisa - é invariavelmente pela recordação que o coração bate mais forte.

[...] nós somos muito do que esquecemos [...] não há vida sem memória.

Daniel Oliveira
in: A Persistência da Memória