14 maio 2013

RESISTIR





 dobrar na boca o frio da espora
calcar o passo sobre lume
abrir o pão a golpes de machado
soltar pelo flanco os cavalos do espanto
fazer do corpo um barco e navegar a pedra
regressar devagar ao corpo morno
beber um outro vinho pisado por um astro

 possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.

 Joaquim Pessoa





10 maio 2013

ORIENTE



 

manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda (se puderes)
e se puderes mais, manda violetas

 (margaridas talvez, caso quiseres)
manda-me osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(em pentagrama, asas transparentes)

 manda-me tudo pelo vento:
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingido de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontrares)

de: Caio Fernando Abreu
 
 
 
 
 
 

05 maio 2013

MÃES, QUE FOMOS, QUE SOMOS, QUE SEREMOS!...

 
 
 
SILOGISMOS

A minha filha perguntou-me
o que era para a vida inteira
e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti,
mas também os conceitos de infinito
são diferentes: é que ela perguntou depois
o que era para sempre
e eu não podia falar-lhe em universos
paralelos, em conjunções e disjunções
de espaços e tempo,
nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,
mas eu sabia ser inevitável a questão
seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre
era assim largo, abri muito os braços,
distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo,
disse-me que amanhã
queria estar comigo para a vida inteira)

De: Ana Luisa Amaral
 
 
 
 
 

03 maio 2013

VOZES MINHAS




O súbito fraseador que mimava
a sua fala pela do vento
não me disse Heraclito fui,
tal como eu o pensei.
Disse só deste lado do recorte
da serra sopra mais.
Ouvir por dentro. Clarear
traços que nos separam
da figura falante. O amanho
da Terra liga-nos.
Ouvinte do vento, não me
disse como eu: Verdade
e substância, na primeira apanha.
Quietude. Êxtase, na eclosão.

Cavou ao longo da esticada corda
que orienta as leiras. Esteve
em movimento ali um dia: Ó terra,
tudo está nos sentidos
antes do senso, voz certa,
som áspero, vento de rajadas grossas.

Fiama Hasse Pais Brandão
"Três Rostos - Ecos"


25 abril 2013

QUEM AMA A LIBERDADE...


Cravo de Abril
[imagem da net]

Quem ama a liberdade conhece que é idêntica
a verdade e a não-verdade o ser e o vazio
e por isso na sua celebração a metáfora expande-se
na liberdade de ser a ténue sabedoria
desse momento e só desse momento em que o arco cresce
Há então que procurar a chuva dessa nuvem
ou desdizê-la não para o nosso olhar
mas para um outro rosto de areia que cresce no vazio
e poderá ser de pedra ou de ouro ou só de uma penugem
O poema é o encontro destas duas faces
de nenhuma substância quando no vazio do céu
os anjos se diluem com as mãos despojadas

António Ramos Rosa
[As espirais do silêncio]






18 abril 2013

DOS PINHAIS






ondulando, os pinhais
quiseram ser o mar.
murmurando, quiseram ser
o vento. mas somente
no meu ouvido eram vento,
nos meus olhos, mar.

e hoje, ali na encosta,
pinhais bordejam
o mar, sustêm o vento.
 
Fiama Hasse Pais Brandão
 
 
 

09 abril 2013

EPISÓDIO MUSICAL




 
ao ouvir as suites inglesas de Bach, a humidade
dos campos envolve-me, com uma névoa de rios
e uma auréola de margens. esta música puxa-me,
pelas suas mãos de som, para o ritmo que o poema
devia encontrar no limite dos teus cabelos; e tu,
contra o portão, nesse contraluz que te incendeia
o vermelho da túnica sobre o fundo branco dos
muros, roubas ao cravo o seu sorriso profano,
plantando nas suas teclas um desejo que o jardim
do teu corpo fará florescer. assim, vens até mim
pelos degraus deste ritmo que Bach inventou,
para descrever não se sabe que dança, movimento
de saias com vento, baloiço vago que se evola
de uma entrega evanescente, num canto de arbusto,
até ao silêncio branco com que o amor se fecha.
 
Nuno Júdice