23 setembro 2014

QUE COR Ó TELHADOS DE MISÉRIA





*ANTÓNIO RAMOS ROSA*
(17 Outubro 1924 † 23 Setembro 2013)


que cor ó telhados de miséria
onde nasci 
de tanta pequenez de tão humildes ovos 
de nenhum querer 
a que horas nasceram as estrelas que 
um dia foram 
a que horas nasci? 

Não vim embarcado não me encontrei 
na rua 
não nos vimos 
não nos beijamos 
nunca parti 

Não sei que idade tenho 

Quando havia antes um antigamente 
havia uma esperança 
agora no próprio coração da ilusão 
onde a água limpa as pedras das ruínas 
entre destroços límpidos 
deito-me sobre a minha sombra e durmo 
e durmo 

Quando havia antes um amanhecer 
à beira do abismo 
agora no próprio coração do coração 
durmo estrangulando um monstro inerme 
um palhaço de palha seca e pálido 
quando havia antes um caminho 

Não houve nunca amigos nem, pureza 
Nem carinhos de mãe salvam a noite 
É preciso ir mais longe na incerteza 
É preciso no silêncio não escutar 

A manhã que eu procuro não foi sonhada 
Uma árvore me ignora na raiz 
Perfeitamente desesperado é o meu sonho 
Os pássaros insultam-me na cama 
Só com doidos com doidos amaria 
perfeitamente presente na frescura 
do mar 

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço 
a líquida frescura duma jarra 
um passo leve e certo em cada sombra 
um ninho em cada ouvido 
de doces abelhas cegas 

Uma casa uma caixa de música e sossego 
Um violão adormecido na doçura 
Um mar longínquo à volta atrás do campo 
Uma inundação de verdura e espessa paz 
Uma repetida e vasta constelação de grilos 
e os galos álacres do silêncio 

Um mar de espuma e alegria obscura 
um mar de espuma e alegria clara 
entre o verde e a brisa 

Na brancura dos quartos 
a inocência poderá sonhar desnuda 
os insetos poderão entrar 
juntamente com as plantas e as aves 
Uma longa asa passará 
O mundo e o silêncio a mesma ave 
e o mar 
o mudo leão longínquo e fresco 
faiscará entre o ver e as lâminas solares


*
MÚSICA PARA RAMOS ROSA:
F. CHOPIN, Vladimir Ashkenazy, 
Étude No.24 in C minor, Op. 25 No.12




18 setembro 2014

ENTARDECER





O cinza-prata do amanhecer misturava-se nos tons lilás das árvores da avenida ainda silenciosa e conferindo-lhe um certo ar de misteriosa melancolia, gémea deste sentir instalado no meu peito.

Doce serenidade que desde cedo aprendi a roubar da natureza, o único alimento perfeito desta minha ânsia de paz e harmonia. E no raiar desta madrugada, acode-me a imensa vontade de um enorme saber!...

… O sonho, companheiro fiel de todos os segundos da minha vida real, aquela que vivo de olhos acordados, transporta-me ao encantador cenário do entardecer, quando preguiçoso e sensual o Sol me convida a repousar com ele no leito vermelho e dourado, lá longe, no horizonte!...

Queria tanto saber dizer deste meu entardecer, de como o sinto dentro de mim, igual ao encanto brilhante do declinar do dia!... De como pode ser doce e sereno o encontro no nosso escondido EU com o acordar da madrugada!... Queria sim, mas não sei!... Dizer dos sonhos em que me recosto e também vivo, largados escondidos nas nervuras das nuvens, e de como me lavam a alma quando de tão gordas explodem em gotículas de chuva fresca e reparadora!...

São os sonhos também verdades de mim, que eu escrevo nas folhas verdes da vida, que afago com os dedos nas letras que escrevo, os olhos que procuram outros olhos, os lábios que sopram segredos, o sangue que pulsa de desejos, a alma onde escondo o poema que me és!...

Mas… saber entardecer feliz é o exercício mais difícil da Escola da Vida, não se estuda nos livros, é uma sabedoria que se adquire dentro da alma, é uma lição a praticar na caminhada difícil do viver! O entardecer de alguns só se torna difícil pela dificuldade que os outros têm de o entender como parte integrante da vida, de o aceitar como um processo natural e belo do Universo, perceber que a vida é muito curta e pode ser muito bonita, nas suas coisas pequenas e simples, que é feita de muitos dias, e cada um deles tem que ser vivido no presente, até ao último!...

Não será fácil entardecer feliz, 
enquanto os idosos comuns não forem considerados idosos,
simplesmente isso:
IDOSOS...!



07-06-2009
Maria Santos Ferreira







07 setembro 2014

"A ESSÊNCIA DO HOMEM É A SUA ALMA"




imagem da web


Sócrates (469-399 a.C.), filho de um escultor e de uma parteira, herdou as artes do pai e da mãe, tornado-se um escultor de almas e parteiro de idéias. Seu processo de pensamento filosófico consistia em fazer com que seus interlocutores buscassem, através do raciocínio e da aceitação de sua ignorância diante do assunto, suas próprias verdades, sem considerar os costumes e dogmas impostos.

A esse processo deu o nome de Maiêutica (do grego – arte de trazer à luz), fazendo com que as pessoas com quem tinha contato, elaborassem suas próprias idéias e conceitos, trazendo-lhes, segundo Sócrates, a liberdade e a noção do que é realmente necessário à vida do homem, a sabedoria.

Diferentemente dos Sofistas, que utilizavam a retórica como arte de influenciar e, assim, tirar proveito para si, Sócrates usava seu conhecimento e reflexão para elevar a alma humana (a essência do ser) ao nível das coisas supremas. Para ele, o ideal de busca do homem deveria ser o bem, o justo, o amor e o belo e via na ética e na moral, as bases para se alcançar essa elevação.

A famosa frase “conhece-te a ti mesmo”, demonstra a clara opção de Sócrates pelo ser humano e suas peculiaridades. Para ele, as pessoas deveriam ter liberdade total de pensamentos e idéias, e a justiça deveria estar presente em todos os atos humanos.

Considerando a justiça e a moral como que direcionando os atos humanos, pode-se inferir que, caso aja assim, o homem não terá o livre arbítrio, pois suas decisões seriam comandadas por essas duas regras. Nessa concepção de comportamento, todo ato que fugisse à justiça ou à moral, seriam condenáveis.

A profunda concepção de liberdade e pensamento fazia com que Sócrates questionasse tudo, das leis humanas aos deuses, dos dogmas aos costumes e isso lhe trouxe a reputação de corruptor da juventude ateniense, pelo fato de fazer com que os jovens refletissem mais sobre a vida e os valores tidos como certos.

Tal comportamento era inaceitável para a aristocracia da época e Sócrates foi julgado e condenado pelo tribunal ateniense. Mesmo diante do tribunal e da certeza de sua condenação, Sócrates manteve a postura de quem não teme nada, consciente de sua própria consciência, de que nada fez que merecesse a condenação.

No relato de seu maior discípulo e biógrafo, Platão, Sócrates assim de defende:

“Ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um pouco mais sábio que ele exatamente por não supor que saiba o que não sei”.

Essa declaração demonstra claramente a idéia de Sócrates de que, todo homem deve estar ciente de sua ignorância, para se manter de mente aberta a novos conhecimentos. Se acreditarmos que sabemos tudo, não aceitaremos opiniões e idéias novas e, portanto, ficaremos estagnados em nosso pseudoconhecimento.

A força dos discursos de Sócrates e sua presença imponente são tão nítidas que as palavras ficaram marcadas em seus discípulos. Com ele aprenderam o valor da filosofia, da amizade, do caráter e da verdade e a valorizar a essência das coisas, deixando de lado as banalidades como poder, reputação e riqueza, desenvolvendo uma postura de reflexão e liberdade de pensamentos, que busca o bem e dá acesso a felicidade e a sabedoria.

de: Geraldo Magela Machado
in:  www.infoescola.com/filosofia/socrates-e-o-direito-de-pensar/






05 setembro 2014

A MÃE QUE CHOVIA



Juntos, trocavam tardes de domingo, descanso, 
beijinhos e coisas mornas de mãe e filho.

Enchiam a barriga de brincadeiragem.
Ele fazia corridas com a mãe,
... brincava às escondidas com ela
e a um jogo secreto que se chamava
"Não tens nada a ver com isso".
[pág.10 e 11]




[...]
Mãe, choves o significado do teu nome sobre a terra,
choves amor que faz nascer plantas-bebés, sorrisos
verdes, que faz crescer saladas e sopas. Mãe, sem ti
não existia a palavra "verdejante". Há tantas palavras
que não existiam sem ti. Mãe, choves palavras sobre o
mundo. As palavras que lanças devagar sobre os campos
enchem os rios e as barragens, dirigem-se ao mar.
Em casa, as pessoas abrem torneiras para encher os copos
com as palavras que choves. É assim que o teu amor
se espalha pelo mundo e, quase sem se notar, o inunda.
Porque tudo aquilo que fazes crescer faz crescer também,
dás vida que dá vida. A mim que sou teu filho, teu filho, 
deste-me toda a vida que tenho e dás-me sempre o teu amor
mais brilhante. Mesmo quando estou onde não podes estar,
mesmo quando estás onde não posso estar, sabemos bem
o tamanho desta certeza que nos une. Eu tenho a certeza
de ti, tu tens a certeza de mim. Amor, essa palavra. Mãe,
choves essa palavra dentro de mim. 
[...]
[pág.59]

de: José Luís Peixoto





20 agosto 2014

BILHA






Assisti a um ritual da água. 
Estava num café em Barrancos, e num nicho na parede, junto ao balcão, repousavam duas bilhas de barro. 
Aparentemente inúteis. 
Velhas, encardidas pela sofreguidão das mãos que as levaram à boca. 
A minha ignorância urbana, julgava-as esquecidas, não lhes concedendo sequer as veleidades do artesanato. 
Que turismo se desloca a um café de Barrancos para ver duas bilhas abandonadas num nicho? 
À falta de espargos com ovos, saboreava um catalão assado, e foi quando me dei conta que os fregueses iam ao pátio encher as bilhas. 
Avaliavam entre si a frescura de cada uma, e levantavam-nas acima da cabeça. 
Bebiam como os vizinhos espanhois, deixando que a água lhes caísse directamente na boca. 
Sem que os lábios tocassem o gargalo. 
Mal os ouvia, e a discrição com que se saciavam, não me concedia a oportunidade de ouvir barranquenho. 
Creio que é aqui que há tocadores de pedras. 
Escolhem-nas entre os seixos do leito seco do Guadiana, e interpretam-nas à maneira que a sede os ensinou. 
Como só é possível entre povos que conhecem a graça da água.

de: Jorge Fallorca [1949-Abril de 2014]
do: Jornal da Poesia



11 agosto 2014

II CANTO-TE





Canto-te 
para que tu definitivamente
existas

Canto o teu nome porque só as coisas cantadas 
realmente são e só o nome pronunciado inicia 
a mágica corrente 
Canto o teu nome como o homem fazia eclodir 
o fogo do atrito das pedras 
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca 
a magia do remédio 
Canto o teu nome como um animal uiva 
de 
Como os animais pequenos bebem nos regatos depois 
das grandes feras 

Canto-te 
e tu definitivamente existes nos meus olhos 
Sempre abertos porque é sempre os meus olhos 
são os olhos da criança que nós somos sempre 
diante da imensidão do teu espaço 

Canto-te
e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
instante pendente de eu te interrogar 
e interrogo as coisas em seu ser noctumo
em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
obscura 
E como é sempre 
meus olhos abertos perscrutam-te 
símbolo de tudo o que me foge
como apertar o ar dentro das mãos
e querer agarrar-te 
oh substância 

Canto-te
com a fragilidade de tudo que existe perante
uma eternidade demasiado nocturna para os nossos
olhos infantis perante a tua antiguidade 
futura 
E a nossa voz é uma pequena onda no dorso 
do teu oceano de matéria 
Um leve arrepio apenas na espantosa espessura 
de teu éter 
Ah no ar é que tudo acontece 
no ar nocturno das idades esquecidas 
que previamente desconheceremos 
No espaço é que tudo acontece 
e o espaço é uma grande 

muito quieta 
onde os nossos olhos penetram
no não sabermos até onde 
ali 
além 
no além onde tudo acontece 
Oh 

oh espaço de tudo ser tão ligeiro e impalpável 
e sermos nós a respiração da 
teu bafo ritmado 
imperceptível distância 
Oh 

augusta majestática dignidade do silêncio
Oh impassibilidade da tua mecânica celeste 
Oh organismo primeiro de todos os fins secretos 
da compreensão das coisas 
Oh inorgânico organismo dos seres 
que se devoram 
Oh 

diz
a quem servimos nós de pasto 

Canto-te 
como quem pronuncia o Mantra esotérico do teu nome 
Canto-te e grito 
para que a poeira que se infiltra em todas as 
coisas se erga de ti como um plâncton 
Oh Madre 
matriz das criaturas inferiores que rastejam 
a teus pés cobertas de pó 
esse pó que a cada momento ameaça submergir-nos 
Oh aranha enorme tecendo tua teia de pó 
Oh 

que desintegras tudo e tudo tu constróis
Ah 

como nós lambemos tuas duras mãos
Oh 

que fustigas nossos olhos com tua sombra
Enorme 
Oh 

que deixas tanto espaço para o silêncio 
das mil pétalas 
dos mil braços esplendorosos em seu abandono 
dos murmúrios 
dos afagos 
sangue derramado sobre o mundo 
Oh 

Porque és sempre tão premente? 
e sempre estás ausentemente 
na tua constância em todas as coisas? 

Oh sono
Oh

morte tão desejada e longa
mágica povoada de átomos 
milhões de espíritos enchem o teu sopro 
E penetras em nós como uma bala 
E tudo morre quando tu chegas 
E tudo se dilui e se transforma em ti 
alada presciência de tudo acontecer 
tão longe de nós e tão antigamente 
e tudo nos ultrapassar com soberana indiferença 
ante os nossos olhos cegos pelo teu negrume 
Oh
 
brilha para dentro de mim 
Acende teus luzeiros em meus olhos 
Ergue teus braços oh 
prenhe de tudo
Oh vaso 
Oh via láctea de nos amamentares com teu leite 
de sombra 
Oh 

úbere e pródiga
Aleita tua ninhada faminta 
Grande fera luzidia 
Grande mito 
Grande deus antigo 
Oh 

urna onde todos dormimos
Oh 

Meus olhos choram já de tanto perscrutar-te 
E canto-te 

Canto-te 
Para que tu existas 
E eu não veja mais nada além de ti 
E nada mais deseje senão que venhas outra vez 
levar-me para dentro do teu ventre 
de nunca mais haver 
E nada mais haver que 

Oh tu
definitivamente além

de: Ana Hathetly
em: Um Calculador de Improbabilidades