18 abril 2012

REDENÇÃO


Vozes do mar, das árvores, do vento!
Quando às vezes, n'um sonho doloroso,
Me embala o vosso canto poderoso,
Eu julgo igual ao meu vosso tormento...

Verbo crepuscular e íntimo alento
Das cousas mudas; psalmo misterioso;
Não serás tu, queixume vaporoso,
O suspiro do mundo e o seu lamento?

Um espírito habita a imensidade:
Uma ânsia cruel de liberdade
Agita e abala as formas fugitivas.

E eu compreendo a vossa língua estranha,
Vozes do mar, da selva, da montanha...
Almas irmãs da minha, almas cativas!

II

Não choreis, ventos, árvores e mares,
Coro antigo de vozes rumorosas,
Das vozes primitivas, dolorosas
Como um pranto de larvas tumulares...

Da sombra das visões crepusculares
Rompendo, um dia, surgireis radiosas
D'esse sonho e essas ânsias afrontosas,
Que exprimem vossas queixas singulares...

Almas no limbo ainda da existência,
Acordareis um dia na Consciência,
E pairando, já puro pensamento,

Vereis as Formas, filhas da Ilusão,
Cair desfeitas, como um sonho vão...
E acabará por fim vosso tormento.

Antero de Quental 





15 abril 2012

ÀS VEZES AS COISAS DENTRO DE NÓS


O que nos chama para dentro de nós mesmos 
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta. 
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar 
e nos torna piedosos, como quem já tem fé. 
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida 
pelo movimento, pela forma, pelo nome, 
voltamos ao zero irradiante, ao ver 
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás 
o que não tem tamanho, mas está agora 
engrandecido dentro do novo olhar.

Fiama Hasse Pais Brandão



12 abril 2012

CIÚME DE POETA?


Tenho acordado,
ultimamente,
com os aromas das flores de Abril enevoados,
a agonizar por entre as moitas do desânimo
e o gosto acre da chuva
derramada pelo temporal da tua ausência.

Abro a janela e vejo o horizonte
a ser puxado para baixo
a cada minuto que passa sem te ouvir
e o grasnado das gaivotas diz-me
que ninguém sabe de ti.

Roubo as asas de uma gaivota e vejo-me,
ofegante,
um trovador à procura do castelo da princesa,
alarmado e volátil como o espírito,
sem palavras de tormenta ou de bonança.

Do alto, vejo-te a sorrir num areal imenso,
beijando o mar a rugir de sofrimento e afastando
o arrepio dos ventos,
indiferente ao meu ciúme tresloucado
[ciúme de poeta?].

Exausto, tento abrigar-me da borrasca,
esmago,
apago,
restauro e
dilato
este sofrer de amar-te porque sim,
este enlevo de algemas
que de mim se faz teu prisioneiro
num jardim pejado de asas diárias de gaivota.

Moribundo,
a respirar páscoas de flores ausentes,
mergulho em calafrios de pétalas insípidas
à espera do encanto do teu cheiro.







07 abril 2012

O ABANDONO. O VAZIO. A INDIFERENÇA. (...)




(...) Tudo está feito, o que tinhas a dizer já o disseste, os que dialogavam contigo para estarem de acordo ou te insultarem foram recolhendo ao silêncio definitivo. É a hora de te ires calando também, recolheres à aposentação de falares e de ouvires. Porque nenhuma palavra é já para ti e assim nenhuma tua é para os outros. Mas a tua língua move-se ainda, entre ela e a palavra, mesmo que seja só um nome, há uma ligação que nada pode cortar. Fala para dentro. Chama para dentro. E poderás circular entre os homens sem que te metam num manicómio. 

de: Vergílio Ferreira


Lentamente, silencioso, fui-me colando todo a mim mesmo, até ao mais intimo de mim.
Incha-me o crânio, devagar, um vapor quente e sanguíneo.
Para um centro imprevisível, em giros rápidos de aço, 
uma fina teia radia-me das unhas, 
das mãos e dos pés.
Voga agora, na água límpida da memória, 
uma imagem branca e dormente.
Depois esvai-se.
Depois regressa.
Depois desaparece definitivamente, mas deixa, 
ó Deus, deixa uma presença vivíssima,
vivíssima,
vivíssima,
Como a chaga que nos fica de um ferro em brasa.
bruscamente, porém, tudo em mim rebrilha incandescente.
Uma estrídula gritaria levanta-se-me no cérebro, 
um guincho agudo fura-me a cabeça de um ouvido ao outro, 
e um murro surdo, absoluto, abate-me finalmente.
Dobro-me sobre mim, rendido, e ali me deixo ficar, 
longamente esquecido da vida, de tudo...

QUE ACONTECEU?!...
(...)

de: Vergílio Ferreira




06 abril 2012

ALMA A SANGRAR



Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?

Quem cinzelou estrelas no jasmim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?

Quem fez os homens e deu vida aos lobos?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?

Quem nos deu asas para andar de rastros?
Quem nos deu olhos para ver os astros
- Sem nos dar braços para os alcançar?!...

Florbela Espanca
Charneca em Flor




05 abril 2012

ESTRELAS PARTIDAS

 

Vou esperar as estrelas partidas
ver como se te apagam nos dedos
ver da luz se chega se está bem
e depois então és tu

É que agora que largas a voar
e vais ver diferente de todos nós
eu posso sabes se calhar esquecer

Mas dás asas com tanta força tu
os dedos são tão longos e escuros
passando nos meios a sobra

As estrelas partidas arranjadas no ar
ver horizontal e extremadamente
tudo assim disposto e memorável

Hugo Milhanas Machado


 
 


04 abril 2012

O TEMPO PERTENCE ÀS COISAS QUE OCUPAM O NOSSO CORAÇÃO [...]


[...]
Também as palavras e o silêncio
as palavras que alguém adormece na sua incompreensão
o silêncio atiçado pelo tempo
esse ferimento que rasteja numa voz profunda
a perturbação de um vazio
a ocupar um pensamento intenso

 Fernando Esteves Pinto