28 outubro 2012

in: DE AMOR ARDEM OS BOSQUES



há lembranças que matam
há bosques onde os amados vivem para sempre
 
há um cutelo de água nas fontes
quando as palavras voam para muito longe
 
há a noite
e os cães que dormem em cordas de sono
em vogais de vento e abandono
 
há barcos que deslizam no horizonte
muito lentamente
e as estrelas descem por dentro dos mastros
na noite
 
há uma orquídea azul que se suicida
onde começa o teu nome

**

há um relâmpago martirizado em meu peito de cambraia
que teima em brotar laranjas de fogo

há um peixe alucinado que canta desmedido
em um céu de cisternas e serpentes

é dezembro, e os girassóis recolhem-se para dentro
- atravessam meu peito de agonia e ouro -
rasgam lenços de seda em minha casa d'Oriente

há sinos de sangue em molduras de sombra e vento
o Sol ilumina um jardim oculto
que te transforma em fonte
 
Maria Azenha






24 outubro 2012

CONVITE

 
 
 
 
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft


 
 


 

20 outubro 2012

AMOR COMO EM CASA





AMOR COMO EM CASA

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

MANUEL ANTÓNIO PINA

In:  "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. 
Calma é Apenas um Pouco Tarde"





- gestos que falam -
os Homens Grandes não morrem




17 outubro 2012

RUÍNAS

 
 
 
 
se é sempre outono o rir das primaveras,
castelos, um a um, deixa-os cair...
que a vida é um constante derruir
de palácios do reino das quimeras!
 
e deixa sobre as ruinas crescer heras.
deixa-as beijar as pedras e florir!
que a vida é um continuo destruir
de palácios do reino das quimeras!
 
deixa tombar meus rútilos castelos!
tenho ainda mais sonhos para erguê-los
mais altos do que as águias pelo ar!
 
sonhos que tombam! derrocada louca!
são como os beijos de uma linda boca!
sonhos!... deixa-os tombar... deixa-os tombar...
 
Florbela Espanca
 
 
 

13 outubro 2012

OS QUATRO ELEMENTOS



Vladimir Kush

Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.

António Ramos Rosa




09 outubro 2012

NO AMOR SOMOS TODOS MENINOS




Meninas, pequenos, pequeninos. 
Sentimo-nos coisas poucas perante a glória descarada de quem amamos. 
Quem ama não passa de um recém-nascido, que recém-nasce todos os dias.
Hoje não é diferente. 
Hoje é o dia, no ano de 2000, em que tive a sorte de me casar com a Maria João, cega, linda e enganada nesse momento como até agora, graças a um Deus que privilegia os que não merecem.
Os casamentos estão para os números e para a sorte como as rifas e as lotarias. 
Havendo amor, passa-se a semana a pensar que se vai ganhar e depois há um dia em que se perde - quando há discussões - seguido de mais uma semana com uma nova esperança. O amor está lá sempre, quer se ganhe ou se perca. O amor corresponde ao jogo em si.
Há jogos sucessivos com resultados diferentes, mas o jogo é sempre o mesmo. Aos jogadores apenas se pede o impossível, facilmente concedido: acreditar que podem ganhar. 
Estamos casados há 11 anos. Passaram num instante. Pareceram mais do que 11 dias, mas menos, muito menos do que 11 meses.
Dizem que os números não querem dizer nada. Mas querem. Nós é que nem sempre queremos que eles nos digam o que querem dizer. A Maria João e eu somos o número 11. Cada um, para ser 11, é inseparável. Sozinho, eu era só um. Meramente somados, não seríamos mais do que dois. Onze somos nós, um ao lado do outro, um número único, que tem uma tabuada reconfortantemente previsível, geminada e ecóica.
[…]!

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (30 Set 2011)'






06 outubro 2012

SOBRE OS DOIS ADOLESCENTES QUE ESTA TARDE ATRAVESSARAM A RUA DE MÃOS DADAS





Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado.

Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,

afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.

Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente. 

Luís Filipe Parrado