28 dezembro 2014

FELIZ PASSAGEM DE ANO!





Para além da janela a neve abria
outro caminho além desses caminhos
que se ocultam no vento quando o tempo
já não é mais o tempo que vivemos
mas a marca do destino que trazemos
de uma outra dimensão, outro lugar
de onde chegam a estrela e o enigma
que há em nós.

Parti, então, rumo à tempestade.

de: Amadeu Baptista
em: O Bosque Cintilante






15 dezembro 2014

PRENDAS DE NATAL:



LIVROS!
e porque não?!


O PAI NATAL 
VIVE NO PÓLO NORTE,
NO MEIO

DA NEVE
e
DO FRIO.



"PARA ONDE VÃO OS GUARDA-CHUVAS"
de Afonso Cruz
[também as imagens são de Afonso Cruz]



O ROMANCE, PASSADO NUM PAÍS MUÇULMANO
CONTA UMA HISTÓRIA DE PERDÃO

na Sic Notícias em 22/10/2013, aqui:
objectiva.blogs.sapo.pt/235302.html




03 dezembro 2014

VERSO VÃO



Martha Graham

Onda de sol, verso de ouro,
perífrase vã. Extasiar-me,
antes, por esta fusão,
mistura de brilhos. Ou, ainda
mais íntima, a consciência
extensa como o céu, o corpo de tudo,
semelhança absoluta. Respirar
na queda da onda. Na água,
uma braçada lenta
até ao limite de mim.

de: Fiama Hasse Pais Brandão






26 novembro 2014

INDICIOS





Fui dispersando indícios na esperança 
de que tu os juntasses e um dia
chegasses até mim como te queria
e cedo te sonhei desde criança.

Guardo ainda bem nítida a lembrança
do tempo em que sozinho percorria
as ruas da cidade estranha e fria,
certo de que quem busca sempre alcança.

Mas tu passaste e não deste por nada
e os indícios sumiram-se no fumo
do trânsito, entre as pedras da calçada,

e eu, que me dou aos desafios que assumo
e sei que a noite cede à madrugada,
levantei-me e segui um novo rumo.


de: Torquato da Luz
[26 de Novembro de 1943 - 25 de Março de 2013]






17 novembro 2014

OS SENTIMENTOS HUMANOS...





Os Sentimentos Humanos certo dia se reuniram para brincar. 

Depois que o Tédio bocejou três vezes porque a Indecisão não chegava a conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. 

A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear. 

O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. 

A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém pois a ideia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: “Ah, gente, vamos deixar tudo como esta”, e como sempre perder a oportunidade de ser feliz. 

A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. 

O Optimismo escondeu-se no arco-íris, e a Inveja se ocultou junto a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente atrás de uma árvore estava odiando tudo aquilo.

A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande, e ainda queria abrigar meio mundo, a Culpa ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma, a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem frígida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais. 

A Mentira disse para Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão activo, e o Esquecimento já nem sabia o que estava fazendo ali. 

Depois de contar 99 a Loucura começou a procurar.

Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, com os olhos furados pelos espinhos.

A loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando beleza pelo mundo. Desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha.

Juntos fazem a vida valer a pena.

de: Lya Luft







08 novembro 2014

AS NEREIDES






Pudesse eu reter o teu fluir, ó quarto 
Reter para sempre o teu quadrado branco 
Denso de silêncio puro 
E vida atenta 
Reter o brilho 
Da Cassiopeia em frente da janela 
Reter a queda 
Das ondas sobre a areia 
E habitar para sempre o teu espelho 
Que de meus ombros jamais tombasse o tempo 
Marinho misterioso e antigo 
Assim como as Nereides 
Não perderão jamais seu manto de água

de: Sophia de Mello Breyner





04 novembro 2014

É OUTRA VEZ A MÚSICA





é outra vez a música,
é outra vez a música que me chama,
outra vez esse esplendor quase animal
que me procura e comigo se faz alma
ou primeira manhã sobre as areias.

de: Eugénio de Andrade




27 outubro 2014

E DE REPENTE É NOITE





cada um está só sobre o coração da terra
trespassado por um raio de sol:
e de repente é noite.

de: Salvatore Quasimodo




28 setembro 2014

PEDIA-ME QUE EU ABRISSE UM LIVRO





Pedia-me que eu abrisse um livro
e procurasse o centro da casa
que lhe dissesse a palavra correspondente a mesa
mas também o som das loiças
os tapetes colados no chão
queria tocar a palavra que sentisse verdadeiramente a tristeza
e o seu coração móvel como uma vasilha de barro
por onde os meus lábios sugam todo o seu entendimento.

Eu lia-lhe as palavras mais limpas
não fosse a sua alma destruir-se contra a minha voz
e o olhar dela buscava a identificação de alguma coisa falsa
talvez a minha habilidade em poupar o seu sofrimento.

É uma doença a leitura que eu faço da casa
e dos dias na sua presença
tudo o que ela escuta é a perfeição da sua ignorância
nada é para destruir nas imagens que lhe apresento
a casa será sempre o centro do livro
e os lugares de dor algumas páginas emocionalmente vazias.

de: Fernando Esteves Pinto
em: Área Afectada

[Temas Originais, Ldª. 2010]





23 setembro 2014

QUE COR Ó TELHADOS DE MISÉRIA





*ANTÓNIO RAMOS ROSA*
(17 Outubro 1924 † 23 Setembro 2013)


que cor ó telhados de miséria
onde nasci 
de tanta pequenez de tão humildes ovos 
de nenhum querer 
a que horas nasceram as estrelas que 
um dia foram 
a que horas nasci? 

Não vim embarcado não me encontrei 
na rua 
não nos vimos 
não nos beijamos 
nunca parti 

Não sei que idade tenho 

Quando havia antes um antigamente 
havia uma esperança 
agora no próprio coração da ilusão 
onde a água limpa as pedras das ruínas 
entre destroços límpidos 
deito-me sobre a minha sombra e durmo 
e durmo 

Quando havia antes um amanhecer 
à beira do abismo 
agora no próprio coração do coração 
durmo estrangulando um monstro inerme 
um palhaço de palha seca e pálido 
quando havia antes um caminho 

Não houve nunca amigos nem, pureza 
Nem carinhos de mãe salvam a noite 
É preciso ir mais longe na incerteza 
É preciso no silêncio não escutar 

A manhã que eu procuro não foi sonhada 
Uma árvore me ignora na raiz 
Perfeitamente desesperado é o meu sonho 
Os pássaros insultam-me na cama 
Só com doidos com doidos amaria 
perfeitamente presente na frescura 
do mar 

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço 
a líquida frescura duma jarra 
um passo leve e certo em cada sombra 
um ninho em cada ouvido 
de doces abelhas cegas 

Uma casa uma caixa de música e sossego 
Um violão adormecido na doçura 
Um mar longínquo à volta atrás do campo 
Uma inundação de verdura e espessa paz 
Uma repetida e vasta constelação de grilos 
e os galos álacres do silêncio 

Um mar de espuma e alegria obscura 
um mar de espuma e alegria clara 
entre o verde e a brisa 

Na brancura dos quartos 
a inocência poderá sonhar desnuda 
os insetos poderão entrar 
juntamente com as plantas e as aves 
Uma longa asa passará 
O mundo e o silêncio a mesma ave 
e o mar 
o mudo leão longínquo e fresco 
faiscará entre o ver e as lâminas solares


*
MÚSICA PARA RAMOS ROSA:
F. CHOPIN, Vladimir Ashkenazy, 
Étude No.24 in C minor, Op. 25 No.12




18 setembro 2014

ENTARDECER





O cinza-prata do amanhecer misturava-se nos tons lilás das árvores da avenida ainda silenciosa e conferindo-lhe um certo ar de misteriosa melancolia, gémea deste sentir instalado no meu peito.

Doce serenidade que desde cedo aprendi a roubar da natureza, o único alimento perfeito desta minha ânsia de paz e harmonia. E no raiar desta madrugada, acode-me a imensa vontade de um enorme saber!...

… O sonho, companheiro fiel de todos os segundos da minha vida real, aquela que vivo de olhos acordados, transporta-me ao encantador cenário do entardecer, quando preguiçoso e sensual o Sol me convida a repousar com ele no leito vermelho e dourado, lá longe, no horizonte!...

Queria tanto saber dizer deste meu entardecer, de como o sinto dentro de mim, igual ao encanto brilhante do declinar do dia!... De como pode ser doce e sereno o encontro no nosso escondido EU com o acordar da madrugada!... Queria sim, mas não sei!... Dizer dos sonhos em que me recosto e também vivo, largados escondidos nas nervuras das nuvens, e de como me lavam a alma quando de tão gordas explodem em gotículas de chuva fresca e reparadora!...

São os sonhos também verdades de mim, que eu escrevo nas folhas verdes da vida, que afago com os dedos nas letras que escrevo, os olhos que procuram outros olhos, os lábios que sopram segredos, o sangue que pulsa de desejos, a alma onde escondo o poema que me és!...

Mas… saber entardecer feliz é o exercício mais difícil da Escola da Vida, não se estuda nos livros, é uma sabedoria que se adquire dentro da alma, é uma lição a praticar na caminhada difícil do viver! O entardecer de alguns só se torna difícil pela dificuldade que os outros têm de o entender como parte integrante da vida, de o aceitar como um processo natural e belo do Universo, perceber que a vida é muito curta e pode ser muito bonita, nas suas coisas pequenas e simples, que é feita de muitos dias, e cada um deles tem que ser vivido no presente, até ao último!...

Não será fácil entardecer feliz, 
enquanto os idosos comuns não forem considerados idosos,
simplesmente isso:
IDOSOS...!



07-06-2009
Maria Santos Ferreira







07 setembro 2014

"A ESSÊNCIA DO HOMEM É A SUA ALMA"




imagem da web


Sócrates (469-399 a.C.), filho de um escultor e de uma parteira, herdou as artes do pai e da mãe, tornado-se um escultor de almas e parteiro de idéias. Seu processo de pensamento filosófico consistia em fazer com que seus interlocutores buscassem, através do raciocínio e da aceitação de sua ignorância diante do assunto, suas próprias verdades, sem considerar os costumes e dogmas impostos.

A esse processo deu o nome de Maiêutica (do grego – arte de trazer à luz), fazendo com que as pessoas com quem tinha contato, elaborassem suas próprias idéias e conceitos, trazendo-lhes, segundo Sócrates, a liberdade e a noção do que é realmente necessário à vida do homem, a sabedoria.

Diferentemente dos Sofistas, que utilizavam a retórica como arte de influenciar e, assim, tirar proveito para si, Sócrates usava seu conhecimento e reflexão para elevar a alma humana (a essência do ser) ao nível das coisas supremas. Para ele, o ideal de busca do homem deveria ser o bem, o justo, o amor e o belo e via na ética e na moral, as bases para se alcançar essa elevação.

A famosa frase “conhece-te a ti mesmo”, demonstra a clara opção de Sócrates pelo ser humano e suas peculiaridades. Para ele, as pessoas deveriam ter liberdade total de pensamentos e idéias, e a justiça deveria estar presente em todos os atos humanos.

Considerando a justiça e a moral como que direcionando os atos humanos, pode-se inferir que, caso aja assim, o homem não terá o livre arbítrio, pois suas decisões seriam comandadas por essas duas regras. Nessa concepção de comportamento, todo ato que fugisse à justiça ou à moral, seriam condenáveis.

A profunda concepção de liberdade e pensamento fazia com que Sócrates questionasse tudo, das leis humanas aos deuses, dos dogmas aos costumes e isso lhe trouxe a reputação de corruptor da juventude ateniense, pelo fato de fazer com que os jovens refletissem mais sobre a vida e os valores tidos como certos.

Tal comportamento era inaceitável para a aristocracia da época e Sócrates foi julgado e condenado pelo tribunal ateniense. Mesmo diante do tribunal e da certeza de sua condenação, Sócrates manteve a postura de quem não teme nada, consciente de sua própria consciência, de que nada fez que merecesse a condenação.

No relato de seu maior discípulo e biógrafo, Platão, Sócrates assim de defende:

“Ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um pouco mais sábio que ele exatamente por não supor que saiba o que não sei”.

Essa declaração demonstra claramente a idéia de Sócrates de que, todo homem deve estar ciente de sua ignorância, para se manter de mente aberta a novos conhecimentos. Se acreditarmos que sabemos tudo, não aceitaremos opiniões e idéias novas e, portanto, ficaremos estagnados em nosso pseudoconhecimento.

A força dos discursos de Sócrates e sua presença imponente são tão nítidas que as palavras ficaram marcadas em seus discípulos. Com ele aprenderam o valor da filosofia, da amizade, do caráter e da verdade e a valorizar a essência das coisas, deixando de lado as banalidades como poder, reputação e riqueza, desenvolvendo uma postura de reflexão e liberdade de pensamentos, que busca o bem e dá acesso a felicidade e a sabedoria.

de: Geraldo Magela Machado
in:  www.infoescola.com/filosofia/socrates-e-o-direito-de-pensar/






05 setembro 2014

A MÃE QUE CHOVIA



Juntos, trocavam tardes de domingo, descanso, 
beijinhos e coisas mornas de mãe e filho.

Enchiam a barriga de brincadeiragem.
Ele fazia corridas com a mãe,
... brincava às escondidas com ela
e a um jogo secreto que se chamava
"Não tens nada a ver com isso".
[pág.10 e 11]




[...]
Mãe, choves o significado do teu nome sobre a terra,
choves amor que faz nascer plantas-bebés, sorrisos
verdes, que faz crescer saladas e sopas. Mãe, sem ti
não existia a palavra "verdejante". Há tantas palavras
que não existiam sem ti. Mãe, choves palavras sobre o
mundo. As palavras que lanças devagar sobre os campos
enchem os rios e as barragens, dirigem-se ao mar.
Em casa, as pessoas abrem torneiras para encher os copos
com as palavras que choves. É assim que o teu amor
se espalha pelo mundo e, quase sem se notar, o inunda.
Porque tudo aquilo que fazes crescer faz crescer também,
dás vida que dá vida. A mim que sou teu filho, teu filho, 
deste-me toda a vida que tenho e dás-me sempre o teu amor
mais brilhante. Mesmo quando estou onde não podes estar,
mesmo quando estás onde não posso estar, sabemos bem
o tamanho desta certeza que nos une. Eu tenho a certeza
de ti, tu tens a certeza de mim. Amor, essa palavra. Mãe,
choves essa palavra dentro de mim. 
[...]
[pág.59]

de: José Luís Peixoto





20 agosto 2014

BILHA






Assisti a um ritual da água. 
Estava num café em Barrancos, e num nicho na parede, junto ao balcão, repousavam duas bilhas de barro. 
Aparentemente inúteis. 
Velhas, encardidas pela sofreguidão das mãos que as levaram à boca. 
A minha ignorância urbana, julgava-as esquecidas, não lhes concedendo sequer as veleidades do artesanato. 
Que turismo se desloca a um café de Barrancos para ver duas bilhas abandonadas num nicho? 
À falta de espargos com ovos, saboreava um catalão assado, e foi quando me dei conta que os fregueses iam ao pátio encher as bilhas. 
Avaliavam entre si a frescura de cada uma, e levantavam-nas acima da cabeça. 
Bebiam como os vizinhos espanhois, deixando que a água lhes caísse directamente na boca. 
Sem que os lábios tocassem o gargalo. 
Mal os ouvia, e a discrição com que se saciavam, não me concedia a oportunidade de ouvir barranquenho. 
Creio que é aqui que há tocadores de pedras. 
Escolhem-nas entre os seixos do leito seco do Guadiana, e interpretam-nas à maneira que a sede os ensinou. 
Como só é possível entre povos que conhecem a graça da água.

de: Jorge Fallorca [1949-Abril de 2014]
do: Jornal da Poesia



11 agosto 2014

II CANTO-TE





Canto-te 
para que tu definitivamente
existas

Canto o teu nome porque só as coisas cantadas 
realmente são e só o nome pronunciado inicia 
a mágica corrente 
Canto o teu nome como o homem fazia eclodir 
o fogo do atrito das pedras 
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca 
a magia do remédio 
Canto o teu nome como um animal uiva 
de 
Como os animais pequenos bebem nos regatos depois 
das grandes feras 

Canto-te 
e tu definitivamente existes nos meus olhos 
Sempre abertos porque é sempre os meus olhos 
são os olhos da criança que nós somos sempre 
diante da imensidão do teu espaço 

Canto-te
e os meus olhos sempre abertos são a pergunta
instante pendente de eu te interrogar 
e interrogo as coisas em seu ser noctumo
em seu estar sombriamente presentes na tua claridade
obscura 
E como é sempre 
meus olhos abertos perscrutam-te 
símbolo de tudo o que me foge
como apertar o ar dentro das mãos
e querer agarrar-te 
oh substância 

Canto-te
com a fragilidade de tudo que existe perante
uma eternidade demasiado nocturna para os nossos
olhos infantis perante a tua antiguidade 
futura 
E a nossa voz é uma pequena onda no dorso 
do teu oceano de matéria 
Um leve arrepio apenas na espantosa espessura 
de teu éter 
Ah no ar é que tudo acontece 
no ar nocturno das idades esquecidas 
que previamente desconheceremos 
No espaço é que tudo acontece 
e o espaço é uma grande 

muito quieta 
onde os nossos olhos penetram
no não sabermos até onde 
ali 
além 
no além onde tudo acontece 
Oh 

oh espaço de tudo ser tão ligeiro e impalpável 
e sermos nós a respiração da 
teu bafo ritmado 
imperceptível distância 
Oh 

augusta majestática dignidade do silêncio
Oh impassibilidade da tua mecânica celeste 
Oh organismo primeiro de todos os fins secretos 
da compreensão das coisas 
Oh inorgânico organismo dos seres 
que se devoram 
Oh 

diz
a quem servimos nós de pasto 

Canto-te 
como quem pronuncia o Mantra esotérico do teu nome 
Canto-te e grito 
para que a poeira que se infiltra em todas as 
coisas se erga de ti como um plâncton 
Oh Madre 
matriz das criaturas inferiores que rastejam 
a teus pés cobertas de pó 
esse pó que a cada momento ameaça submergir-nos 
Oh aranha enorme tecendo tua teia de pó 
Oh 

que desintegras tudo e tudo tu constróis
Ah 

como nós lambemos tuas duras mãos
Oh 

que fustigas nossos olhos com tua sombra
Enorme 
Oh 

que deixas tanto espaço para o silêncio 
das mil pétalas 
dos mil braços esplendorosos em seu abandono 
dos murmúrios 
dos afagos 
sangue derramado sobre o mundo 
Oh 

Porque és sempre tão premente? 
e sempre estás ausentemente 
na tua constância em todas as coisas? 

Oh sono
Oh

morte tão desejada e longa
mágica povoada de átomos 
milhões de espíritos enchem o teu sopro 
E penetras em nós como uma bala 
E tudo morre quando tu chegas 
E tudo se dilui e se transforma em ti 
alada presciência de tudo acontecer 
tão longe de nós e tão antigamente 
e tudo nos ultrapassar com soberana indiferença 
ante os nossos olhos cegos pelo teu negrume 
Oh
 
brilha para dentro de mim 
Acende teus luzeiros em meus olhos 
Ergue teus braços oh 
prenhe de tudo
Oh vaso 
Oh via láctea de nos amamentares com teu leite 
de sombra 
Oh 

úbere e pródiga
Aleita tua ninhada faminta 
Grande fera luzidia 
Grande mito 
Grande deus antigo 
Oh 

urna onde todos dormimos
Oh 

Meus olhos choram já de tanto perscrutar-te 
E canto-te 

Canto-te 
Para que tu existas 
E eu não veja mais nada além de ti 
E nada mais deseje senão que venhas outra vez 
levar-me para dentro do teu ventre 
de nunca mais haver 
E nada mais haver que 

Oh tu
definitivamente além

de: Ana Hathetly
em: Um Calculador de Improbabilidades








27 julho 2014

A INVENÇÃO DO AMOR




[...]

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome
de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio 

A descoberta 
A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou 
A TV anuncia
iminente a captura 

A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique 
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

[...]

de: Daniel Filipe



do vídeo "gente diferente" de Rodrigo Leão



20 julho 2014

AS ROSAS




Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Sophia de Mello e Breyner
em: O Dia do Mar [1947]






12 julho 2014

LUZ





Todo o pintor que quiser acertar há-de ver
Antes de mais de onde vem a luz que dá na figura.
Se vem da janela, se vem de cima, se de baixo,
Se é fronteira, se é de candeia, se é mais do que uma luz
(porque então a maior luz é aquela que se guarda).
Mas vocês que parecem boa gente, não se sintam
Pressionados. Esta secção ainda está sem energia.
Poderíamos talvez descer as escadas às escuras.

Cá fora, a luz fere um pouco a vista, as coisas no entanto
Assumem um significado novo. Por exemplo:
Estas grilhetas são de aço. Ou
Também por exemplo: alguém plantou estas palmeiras
Alinhadas sob um desígnio qualquer. Um tipo
Até podia habituar-se a viver assim, pacatamente:
Uma órbita capaz de evoluir do nosso modo
E uma família normal, com parentes na província.

De:Vítor Nogueira
In: [RESUMO a poesia em 2011]
Edição DOCUMENTA, pag. 172
- FNAC, a favor da AMI -





08 julho 2014

TORQUATO DA LUZ





TALVEZ

Talvez na noite inquieta o teu passo sereno
a tua voz chegada do princípio de tudo
as tuas mãos erguidas num aceno
os teus lábios de quem vai beijar o mundo.

Talvez na manhã clara o teu corpo de fogo
os teus cabelos leque de todas as cores
os teus dedos correndo as ruas do meu corpo
o teu odor a mar por onde quer que fores.

Talvez somente a luz do teu olhar
o sol que deixas sempre em teu lugar.

Torquato da Luz
2005





29 junho 2014

A TRADUTORA





tu lês. antes de ti, ela muda as palavras. antes dela,
eu escrevo. eu passei por aqui, ela passou por aqui,
tu passas agora por aqui.

entendes isso? ela está onde tu estarás. eu estou onde
ela estará. eu corro pelas palavras, ela persegue-me.
tu corres atrás de nós para nos veres correr.

eu escrevo casa e continuo pelas palavras. ela segura
as letras da casa e escreve vida. tu lês vida e entendes casa
e vida. eu não sei o que entendes.

eu corro. ela corre atrás de mim. tu corres atrás dela.
não existimos sozinhos. sorrimos quando paramos,
quando nos encontramos. aqui.

José Luís Peixoto 
em: A Casa, a Escuridão






04 junho 2014

PROJECTO



Gabriel Bonmati

"desta vez vou escrever-te um poema que vai ser
um poema de amor, mas que não é apenas um poema de amor.

o amor, com efeito, é algo que não cabe num poema; pelo contrário,
o poema é que pode caber no amor, sobretudo quando te abraço, e
sinto os teus cabelos na boca, agora que a tua voz me corre pelos
ouvidos como, num dia de verão, a água fresca corre pela 
garganta. 
a isto, em retórica, chama-se uma comparação; e pergunto
o que é que o amor tem a ver com a retórica, ou porque é
que o teu corpo se tem de transformar numa metáfora - rosa,
lírio, taça, qualquer objecto que tenha, na sua essência, um
elemento que me possa levar até ele, como se fosse preciso, para te tocar,
substituir-te por uma outra imagem, ver em ti o que não és,
nem tens que ser, ou ainda transformar-te num lugar comum, que
é aquilo em que, quase sempre, acabam os poemas de amor.

assim, este poema de amor é, mais do que um poema de amor, um 
exercício para escrever um poema de amor - mas um poema de amor
a sério, sem comparações nem metáforas, só contigo, com o 
teu corpo, com a tua voz, com os teus cabelos, com aquilo que é
real, e não precisa de sair da realidade para se tornar objecto de
um poema de amor em que o amor, finalmente, deixe de ser
o objecto único do poema, que se preocupa acima de tudo com
a retórica, as imagens, o equilíbrio das formas.

mas, pergunto, não é o teu corpo uma flor? não é a tua boca uma rosa? não são lírios
os teus seios?
tudo, então, se transforma: e o que tenho nas mãos é uma imagem,
a pura metáfora da vida, a abstracta metamorfose das emoções.

o resto, meu amor, és tu - e é por isso que o poema de amor que te
escrevo, não é, finalmente, um poema de amor."

Nuno Júdice
in: poesia reunida - 1967-2000





23 maio 2014

O PÉ DA BAILARINA




às vezes o mundo explode e insinua‐lhe o seu enigma. revela pistas e mostra as peças que o compõem, ou parte delas. nem o mundo foi o crime perfeito. tenta encaixar as peças, mas elas faltam‐lhe sempre. as que não faltam descansam sobre as placas flutuantes que suportam tudo o que é do mundo e dos homens. ondulando, cada peça é uma forma instável – ora redonda, ora obtusa – que vai regurgitando significados diferentes. e os seus olhos são servos enfeitiçados que lhes adivinham a secreta participação na ilusão que vela o sentido do mundo: umas vezes, esforçam‐se por captar o que fica da transfiguração das coisas e da sua aparição intermitente, outras, cerram‐se como punhos agastados para sossegar um estômago às voltas. o sentido é um sol quebrado.
por vezes, quando os seus olhos abertos se perdem, há aqueles instantes plenos em que tudo se alinha perfeitamente, os momentos geométricos em que tudo se equilibra no fio de trapézio de uma palavra ou de um dia de chuva. e ela equilibra‐se também sobre um chão que plana despido de gravidade. então é um corpo que roda sobre si mesmo com o mundo suspenso na ponta dos pés.

Helena Carvalho. in, a sul de nenhum norte n.º 6, p. 55

[no blog de Manuel Margarido]

11 maio 2014

CANTO DE MIM MESMO





as casas e os quartos estão repletos de perfumes,
as prateleiras estão repletas de perfumes,
eu próprio aspiro essa fragrância, conheço-a e gosto dela,
eu próprio dela poderia embriagar-me, mas não o
permitirei.

a atmosfera não é um perfume, não sabe a emanação
alguma, é inodora,
para sempre ficará na minha boca, por ela me apaixonei,
irei ao rio junto ao bosque e despojar-me-ei de disfarces
e roupas,
estou louco por entrar em contacto com ela.
o fumo da minha própria respiração,
ecos, ondulações, murmúrios e sussurros, raiz do amor,
fio de seda, forquilha e vide,
a minha respiração e inspiração, o bater do coração,
o sangue e o ar que passam pelos meus pulmões, 

o odor das folhas verdes e das folhas secas, da praia e das
rochas escuras do mar, e do feno no celeiro,
o som das palavras que a minha voz atira aos remoinhos
do vento,
alguns beijos leves, alguns abraços, os braços à volta
de um corpo,
o jogo de luz e sombra nas árvores com os dóceis ramos
balouçando,
o prazer de estar só ou no tumulto das ruas, ou pelos
campos e colinas,
a sensação de saúde, os gorjeios do grande meio-dia,
o meu canto ao levantar-me da cama e encontrar o sol. 

achas que mil acres são muitos? Achas que a Terra é muita?
praticaste o necessário para aprender a ler?
sentiste-te orgulhoso por captar o sentido dos poemas? 

fica comigo este dia e esta noite e possuirás a origem
de todos os poemas,
possuirás o que há de bom na Terra e no Sol
(há milhões de sóis)
não terás coisas em segunda ou terceira mão, nem verás
pelos olhos dos mortos, nem te alimentarás
dos espectros dos livros,
nem através dos meus olhos verás, nem de mim terás
as coisas,
escutarás tudo e todos e tudo em ti filtrarás.


de: Walt Whitman
(tradução de José Agostinho Baptista)






05 maio 2014

A MANHÃ





a manhã estática parada 
entre o Tejo azul e a torre branca
que branca e barroca sobe das águas

manhã acesa de silêncio e de louvor
na breve primavera violenta

assim a minha vida era calma
de repente se tornou ânsia e saudade
mas a brisa da varanda é doce e suave
um pássaro canta porque alguém regou

de: Sophia de Mello Breyner




27 abril 2014

HISTÓRIA IMPROVAVEL





Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

in: No Tempo Dividido


Sophia de Mello Breyner Andreson




23 abril 2014

EXÍLIO





QUANDO A PÁTRIA QUE TEMOS NÃO A TEMOS 
PERDIDA POR SILÊNCIO E POR RENÚNCIA 
ATÉ A VOZ DO MAR SE TORNA EXÍLIO 
E A LUZ QUE NOS RODEIA É COMO GRADES

de: Sophia de Mello Breyner Andresen






18 abril 2014

PÁSCOA FELIZ



imagem do google

foi um dia, e outro dia, e outro ainda.
só isso: o céu azul, a sombra lisa,
o livro aberto.
e algumas palavras. poucas,
ditas como por acaso.

eram contudo palavras de amor.
não propriamente ditas,
antes adivinhadas. ou pressentidas.
como folhas verdes de passagem.
um verde, digamos, brilhante,
de laranjeiras.
foi como se de repente chovesse:
as folhas, quero dizer, as palavras
brilharam. não que fossem ditas,
mas eram de amor, embora só adivinhadas.
por isso brilhavam. como folhas
molhadas.

de: Eugénio de Andrade, em
"Os sulcos da Sede"




10 abril 2014

CANÇÃO DA MULHER QUE ESCREVE



rafal olbinski


Não perguntem pelo meu poema:
Nada sei do coração do pássaro
Que a música inflama.

Não queiram entender minhas palavras:
Não me dissequem, não segurem entre vidros
Essas canções, essas asas, essa névoa.

Não queiram me prender como a um insecto
No alfinete da interpretação:
Se não podem amar o meu poema, deixem
Que seja somente um poema.

(Nem eu ouso ergue-lo entre meus dedos e perturbar a sua liberdade). 

De: Lya Luft