30 dezembro 2012

FELIZ ANO NOVO!





UM DIZER AINDA PURO

imagino que sobre nós virá um céu
de espuma e que, de sol em sol,
uma nova língua nos fará dizer
o que a poeira da nossa boca adiada
soterrou já para lá da mão possível
onde cinzentos abandonamos a flor.

dizes: põe nos meus os teus dedos
e passemos os séculos sem rosto,
apaguemos de nossas casas o barulho
do tempo que ardeu sem luz.
sim, cria comigo esse silêncio
que nos faz nus e em nós acende
o lume das árvores de fruto.

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

Vasco Gato
[um mover de mão]







06 dezembro 2012

POEMA e... FELIZ NATAL!

ARTE POÉTICA

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, Lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar doce de menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?,que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir à tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é um palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.
José Luís Peixoto



02 dezembro 2012

DÁ-ME ALGUMA DA TUA PELE TERRA

 
 

 
 
 dá-me alguma da tua pele terra
tu que não me pedes nada e
me apareces de noite vestida de
nudez pele terra e me abres caminhos
para que te conheça dá-me algum
do silêncio que me dás para que
nele te diga pele terra se de noite
me apareces iluminada de muitos
pássaros a nascer e a voar a
nascer e a voar silêncio pele terra
para que te conheça dá-me o que
dás a todos e nunca deste senão
a mim pele terra tu que me dás
os gestos das minhas mãos
a música das minhas palavras que
me dás pele terra esconde-te
dentro de mim

José Luís Peixoto
 in: "A Criança em Ruínas"
 
 
 
 
 

30 novembro 2012

LYA LUFT


 
  
Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Mordo devagar
o fruto desta inquietação.
(Alguém me inventa e desinventa
como quer: talvez seja esta a minha condição.)

Bastaria um momento de silêncio
para eu ser feliz:
mas do fundo do palco
uma voz me chama.
Serás tu, amor,
ou é a morte, apenas, que reclama?

Lya Luft
 
fonte:
 
 
 

TEATRO DE SOMBRAS

Alguém joga xadrez com minha vida,
alguém me borda do avesso,
alguém maneja os cordéis.
Alguém me inventa e desinventa
como quer:
talvez seja esta a minha condição.

Alguém dirige o teatro de sombras
no qual fui ré setenciada.
Finjo entender de tudo:
ando de um lado e outro,
faço gestos com a mãos,
cuspo as sementes do fruto
entalado na garganta
com um grito: Alguém aí pode me ouvir?

Ninguém reage, ninguém tenta aplaudir:
nesse reino todos usam disfarces,
menos a solidão.

Lya Luft
 
fonte:

 
 
 
obs: eu apenas conhecia a segunda versão deste poema, estranhei encontrar a primeira que, confesso, desconhecia, deixo as duas aguardando ensinamento.
 
 
 

23 novembro 2012





MOVIMENTO

movimento de alma 
silêncio, emoção 
de doçura meia, 
essa tua palma 
sobre a minha mão 
o que tem que eu leia? 

para lá da floresta 
onde as coisas são 
sem minha licença, 
mais linear que esta 
confusa razão 
da tua presença 

não há outro sim 
que não tem dizer 
e é mais movimento? 
qualquer coisa assim 
como um tempo sem fim 
como um espaço sem tempo 

Mário Cesariny 






20 novembro 2012

REGRESSO À CAVERNA DE PLATÃO



no conflito entre o poeta e o filósofo,
ensina Platão que não se deve fixar o sol
porque, depois de o fazer, ofuscados
pelo brilho intenso, não nos habituamos
aos objectos comins, e assim nos perdemos
das coisas reais, após a revelação
da verdade celeste.

ée então que o homem, ainda com o peso
da luz no espírito, tacteia em roda, procurando
a saída, e encontrando apenas as sombras,
que o empurram de um para outro lado,
como um simples boneco, fechando-o
para o mundo inteligivel, de que sente
a nostalgia e o desejo.

por um lado, o filósofo compreende
esta situação, e desenvolve um raciocínio
cujo enncadeado dialéctico o conduz a uma
alegoria: prisioneiro expulso da luz
pelo excesso de luz, o homem sente mais
profundamente a sua miséria, agora que
descobriu a obscuridade e os limites
do mundo, na gruta que o prende. é aqui,
no entanto, que o poeta perturba
a lógica do pensamento.

com efeito, o poema corresponde à luz
do sol, com a sua plena revelação do absoluto,
sem provocar a cegueira. Pelo contrário,
é nele que nos movemos à vontade, sem precisarmos
de saír do mundo para deescobrir a sua evidência,
por outro lado, as suas imagens são um reflexo luminoso
de tudo o que, na realidade, nos parece incompleto
e sombrio. «então», diz o poeta,
«para quê fixar o sol, se as minhas palavras
reproduzem a sua luz?»

«por isso», responde o filósofo, «não tens lugar
na minha república. não convém dar a vista
aos cegos, quando a minha função é guiá-los,
nem dizer-lhes que o sol está ao alcance da mão,
quando é através de mim que o devem
atingir.»

por vezes, o conflito de interesses
sobrepõe-se à razão; e, no erro do filósofo,
a sombra do mundo do mundo impede que a luz da verdade
se imponha no espírito, fazendo com que
a falsa dialéctica se desenvolva até ao fim
mais absurdo.

Nuno Júdice
«Geometria Variável»



17 novembro 2012

OUTONO






uma lâmina de ar
atravessando as portas. Um arco,
uma flecha cravada no Outono. E a canção 

que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas. 
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio. 

É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
cumprimenta o sol. Procura-se viver.


Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
a imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
que a minha boca recusa. É outono
a pouco e pouco despem-se as palavras.

Joaquim Pessoa







15 novembro 2012





quando as aves falam com as pedras 
e as rãs com as águas 

- é de poesia que estão falando

Manoel de Barros






11 novembro 2012

- AS PALAVRAS FALHAM, E ESSA É A COMUNICAÇÃO





Aqui o mar é sono perpétuo, 
câmara para o mais terrível segredo.
Entro nele de mãos trémulas, certo
das minhas cedências. Recordo o sabor 
salino de outras perdas, casas tombadas
das quais sou solitária ruína.


Eu, que tenho dado à insónia,
embebo-me agora nas águas de outro dialecto

- as palavras falham, e essa é a comunicação.



de: Vasco Gato






09 novembro 2012



Este poema de amor
é bilhete sem destino
Não sei a quem entregá-lo
Não há nome no envelope
nem rua, nem direção
Ternura jogada fora
saudade apenas, sem fatos
que se possam recordar
este poema de amor
reincidente e insano
joga sal no oceano
transpira lençóis de insônia
esboça os traços de um rosto
traceja a forma de um corpo
apaga, torna a fazer
Vento vago que levanta
e logo depois deposita
palavras soltas, papel
este poema,
eu mesma,
este poema é ninguém.
 
de: Ana Mariano
 
 
 
 
 

05 novembro 2012

MÚSICOS DE RUA


as duas faces da moeda
[não resisti a este poema que achei encantador
encontrei-o por mero acaso, na net,
não sei o nome da autora]

Lá na minha rua eu podia ser tudo...
Bandida, mocinha, princesa, rainha...
E quando vencia qualquer brincadeira,
Eu era aclamada de "a heroína"!

Lá na minha rua eu podia ser tudo
Ter asas, voar, ser um passarinho...
Em árvores pousar, construir o meu ninho,
Cair, machucar e voltar a sonhar.

Ser bruxa malvada, uma feiticeira,
Pular e gritar ao redor da caldeira
Ver olhos de espanto de uma criançada,
Fugindo correndo da tal caldeirada.

Lá da minha rua eu podia ver tudo,
Um céu pintadinho de estrelas-cadentes,
A lua pertinho do final da rua,
Piscando, sorrindo, mostrando-se nua.

Lá na minha rua deixei registrada
Uma infância feliz, onde podia tudo,
Rua de pedrinhas, de luz, de brilhantes...
Rua dos meus sonhos, meu marco, meu mundo!!!









02 novembro 2012

ENTREI NO CAFÉ COM UM RIO NA ALGIBEIRA




Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino


**


Chove...
Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

José Gomes Ferreira
[1900-1985]






28 outubro 2012

in: DE AMOR ARDEM OS BOSQUES



há lembranças que matam
há bosques onde os amados vivem para sempre
 
há um cutelo de água nas fontes
quando as palavras voam para muito longe
 
há a noite
e os cães que dormem em cordas de sono
em vogais de vento e abandono
 
há barcos que deslizam no horizonte
muito lentamente
e as estrelas descem por dentro dos mastros
na noite
 
há uma orquídea azul que se suicida
onde começa o teu nome

**

há um relâmpago martirizado em meu peito de cambraia
que teima em brotar laranjas de fogo

há um peixe alucinado que canta desmedido
em um céu de cisternas e serpentes

é dezembro, e os girassóis recolhem-se para dentro
- atravessam meu peito de agonia e ouro -
rasgam lenços de seda em minha casa d'Oriente

há sinos de sangue em molduras de sombra e vento
o Sol ilumina um jardim oculto
que te transforma em fonte
 
Maria Azenha






24 outubro 2012

CONVITE

 
 
 
 
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Lya Luft


 
 


 

20 outubro 2012

AMOR COMO EM CASA





AMOR COMO EM CASA

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

MANUEL ANTÓNIO PINA

In:  "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. 
Calma é Apenas um Pouco Tarde"





- gestos que falam -
os Homens Grandes não morrem




17 outubro 2012

RUÍNAS

 
 
 
 
se é sempre outono o rir das primaveras,
castelos, um a um, deixa-os cair...
que a vida é um constante derruir
de palácios do reino das quimeras!
 
e deixa sobre as ruinas crescer heras.
deixa-as beijar as pedras e florir!
que a vida é um continuo destruir
de palácios do reino das quimeras!
 
deixa tombar meus rútilos castelos!
tenho ainda mais sonhos para erguê-los
mais altos do que as águias pelo ar!
 
sonhos que tombam! derrocada louca!
são como os beijos de uma linda boca!
sonhos!... deixa-os tombar... deixa-os tombar...
 
Florbela Espanca
 
 
 

13 outubro 2012

OS QUATRO ELEMENTOS



Vladimir Kush

Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.

António Ramos Rosa




09 outubro 2012

NO AMOR SOMOS TODOS MENINOS




Meninas, pequenos, pequeninos. 
Sentimo-nos coisas poucas perante a glória descarada de quem amamos. 
Quem ama não passa de um recém-nascido, que recém-nasce todos os dias.
Hoje não é diferente. 
Hoje é o dia, no ano de 2000, em que tive a sorte de me casar com a Maria João, cega, linda e enganada nesse momento como até agora, graças a um Deus que privilegia os que não merecem.
Os casamentos estão para os números e para a sorte como as rifas e as lotarias. 
Havendo amor, passa-se a semana a pensar que se vai ganhar e depois há um dia em que se perde - quando há discussões - seguido de mais uma semana com uma nova esperança. O amor está lá sempre, quer se ganhe ou se perca. O amor corresponde ao jogo em si.
Há jogos sucessivos com resultados diferentes, mas o jogo é sempre o mesmo. Aos jogadores apenas se pede o impossível, facilmente concedido: acreditar que podem ganhar. 
Estamos casados há 11 anos. Passaram num instante. Pareceram mais do que 11 dias, mas menos, muito menos do que 11 meses.
Dizem que os números não querem dizer nada. Mas querem. Nós é que nem sempre queremos que eles nos digam o que querem dizer. A Maria João e eu somos o número 11. Cada um, para ser 11, é inseparável. Sozinho, eu era só um. Meramente somados, não seríamos mais do que dois. Onze somos nós, um ao lado do outro, um número único, que tem uma tabuada reconfortantemente previsível, geminada e ecóica.
[…]!

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (30 Set 2011)'






06 outubro 2012

SOBRE OS DOIS ADOLESCENTES QUE ESTA TARDE ATRAVESSARAM A RUA DE MÃOS DADAS





Foi depois do fim das aulas.
Passaram o portão de ferro da escola
e deram as mãos
para atravessarem a rua.
E, de mãos dadas, formaram
uma corrente
tão poderosa, tão compacta,
que o trânsito teve mesmo de parar
e ficou completamente imobilizado.

Não vou ceder
agora à tentação
de afirmar que assisti
à materialização de um milagre,

afinal é coisa
que deve estar sempre a acontecer,
em algum lugar, ao fim
da manhã ou da tarde, logo
depois das aulas,
dois adolescentes dão
as mãos, atravessam a rua, bloqueiam
a circulação rodoviária
de uma cidade.

Mas pensa nisso por um segundo,
pensa na força dessa corrente. 

Luís Filipe Parrado






30 setembro 2012

INFLAMA-ME, POENTE: FAZ-ME PERFUME E CHAMA





Inflama-me, poente: faz-me perfume e chama;
que o meu coração seja igual a ti, poente!
descobre em mim o eterno, o que arde, o que ama,
...e o vento do esquecimento arraste o que é doente!

Juan Ramón Jiménez








27 setembro 2012

ANJO EM TRANSFIGURAÇÃO E MORTE





 
As cerejas em mosai
cos. Aquele era
transparente. Claro por cima das latadas.
Subtil. Tenro. Com figu
ra s antigas. As alego
rias em metamor
fose. Eu bebi o fil

tro de néctar. Ansi
ei. Tive desejo da
morte. Avancei para o fo
go. Esta água ateia-me.
As uvas ardem. Afi
nal o poema age. É
útil. Agitado. Possan
te como as labaredas

que nos tornam nítidos.
A luz delas e a Tua
morte. Tão claras que
desaparecemos. Tão visí
vel o fogo que o poe
ma está dourado. Apren
di antigamente a amar.
Bocas de fogo. Uvas de ouro.

Fiama Hasse Pais Brandão
[14 Polissílabos Sobre Anjos]






26 setembro 2012

PORQUE SE FAZ URGENTE ESCLARECER:



[era suposto eu aprender primeiro a escrever, para só depois começar a publicar aqui palavras minhas, tenciono cumprir, hoje é uma excepção, uma vez sem exemplo e apenas porque aqui todos me lêem...]



... escusando-me a qualquer tipo de comentários e por via de sucessivas e incómodas mensagens que recebo, quero de maneira simples esclarecer publicamente que:

- Não tenho página ativa no Facebook, não gosto (já o disse milhentas vezes)

- Não sei quem são: Liberta, Lena nem Vera (pelos vistos com página no Facebook e há quem jure que sou eu)

- Não tenho nenhum blog em atividade, nem antigo nem novo, para além do Vento, do Porto de Abrigo e do Pianíssima, nem faço a mínima ideia que blogs novos são esses que andam por aí e me acusam de ser meus.

- Esclareço ainda que tenho essas mensagens recebidas escritas e guardadas na memória de um telemóvel;  perceba-se que há largo tempo que não permito anónimos nos blogs, quero com isto dizer que esta cena já vem de longe…[não foi por acaso que Tarde de Música e Mimos de/para os Amigos saiu do ar]

Quando não me reduzo a um silêncio lúcido e corrosivo em situações como esta, que são de uma cobardia a toda a prova, sou por vezes azeda, é verdade, quando as pessoas ultrapassam os limites do bom senso, não sei mudar isso, nem quero, porque penso que como toda a gente também tenho direito à minha indignação e protesto.

Peço desculpa a todos os amigos pelo conteúdo desagradável desta publicação, para mim urgente de fazer-se já que desconheço o conteúdo das ditas páginas; é que as palavras posso lê-las, mas as vozes não se fazem ouvir...

Um abraço imenso a quem me acarinha.
E... um lamento, apenas um lamento aos julgadores inconsequentes.





24 setembro 2012

DEVIAMOS OUVIR...



Torquato da Luz



DEVÍAMOS OUVIR A VOZ DO VENTO
QUANDO SOPRA NAS FRINCHAS DA JANELA
E TENTAR PERCEBER NO SEU LAMENTO
A MENSAGEM COM QUE NOS INTERPELA

de: Torquato da Luz



21 setembro 2012


Tapas os caminhos que vão dar a casa 
Cobres os vidros das janelas 
Recolhes os cães para a cozinha 
Soltas os lobos que saltam as cancelas 

Pões guardas atentos espiando no jardim 
Madrastas nas histórias inventadas 
Anjos do mal voando sem ter fim 
Destróis todas as pistas que nos salvam 

Depois secas a água e deitas fora o pão 
Tiras a esperança 
Rejeitas a matriz 

E quando já só restam os sinais 
Convocas devagar os vendavais

Maria Teresa Horta




19 setembro 2012

A NUVEM SOBRE A PÁGINA





Semelhante à imóvel
transparência
à inesgotável face
à pedra larga onde o olhar repousa
Água sombra e a figura
azul quase um jardim por sob a sombra
a iminência viva aérea
de uma palavra suspensa
na folhagem
Semelhante ao disperso ao ínfimo
chama-se agora aqui o sono da erva
a ligeireza livre
a nuvem sobre a página

António Ramos Rosa
[A Nuvem sobre a Página(1978)]




17 setembro 2012




Ana Razumoskaya


A minha fala de amor
Não tem segredo.

Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.

Tive casa e jardim.
E rosas no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
- Sua brancura, o cheiro.

Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito. 

Hilda Hilst




15 setembro 2012

NAVEGAÇÕES



ATRAVÉS DO TEU CORAÇÃO PASSOU UM BARCO

QUE NÃO PÁRA DE SEGUIR SEM TI O SEU CAMINHO




Vi as águas, os cabos, vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som de suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais.

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri.

Sophia Mello Breyner






12 setembro 2012

A IMAGEM DA FLOR





Não vou cantar este inverno como se fosse Outono,
Nem a quedas das folhas que inundam os passeios por onde
Passo devagar, como se te levasse ao meu lado, nem
Esse pássaro que aqui ficou por engano, e me traz com
O seu canto o horizonte de rouxinóis que o teu olhar
Me abre, quando o fixo na embriaguez do estio. Talvez
Seja um outro o sentimento que inunda esta doce estação
Em que a melancolia é redonda como a laranja que
Ficou,  por esquecimento, num canto da mesa: refiro-me
A essa saudade que amadurece quando a primavera
Está longe, ainda, e me cai nas mãos quando a corto
Do ramo que o teu desejo alimenta. Embalo-a, como
Se fosse um recém-nascido, e pouso-a na terra húmida
Onde a manhã já desfaz uma névoa de solidão.

Nem vou esvaziar a noite do seu peso de música,
Dos momentos em que a tua voz a enche com o seu
Murmúrio de palavras, do luminoso eco de uma
Sombra que se desfaz quando o teu corpo se liberta
Do espelho da memória. Abraço essa noite com o seu
Vazio e a sua treva, e tiro de dentro dela a imagem
Da flor que me deste, com o seu centro entreaberto,
E um pólen de frases em que principia a manhã
Do mundo, branca e imensa, onde me esperas com
A surpresa da vida. Hoje, vestir-te-ia da cor do mar,
Rodear-te-ia o corpo com um ouro de maré, e
Enrolar-te-ia nos cabelos um fio de vento litoral,
Como se fosses o porto e a viagem, ao mesmo tempo,
A água e a terra em que flutuo e renasço.

E vejo-te, nesta linha de luz em que se liberta
Uma intimidade de respiração, com a realidade do teu rosto,
O desenho de pétala do verso que te envolve, e
O breve gesto da despedida em que o amor se demora.

Nuno Júdice
 

 
 



07 setembro 2012






Ouve que estranhos pássaros de noite 

Tenho defronte da janela: 
Pássaros de gritos sobreagudos e selvagens 
O peito cor de aurora, o bico roxo, 
Falam-se de noite, trazem 
Dos abismos da noite lenta e quieta 
Palavras estridentes e cruéis. 
Cravam no luar as suas garras 
E a respiração do terror desce 
Das suas asas pesadas. 

Sophia de Mello Breyner Andresen





01 setembro 2012

AS MÃOS DADAS


Um dia me falaste
e as árvores morriam galho a galho seco.
Havia flores, recordo.
Havia ruas, aí também recordo.
e escadas
vazias.

Não me falaste, não.
Fui eu quem perguntou,
beijando-te tremente, quantos anos tinhas,
e o teu nome.

Não tinhas nome; ou tinhas mas não teu.
E a tua idade, as tuas mãos nas minhas

Jorge de Sena




26 agosto 2012

... PALAVRAS DESLUMBRADAS...






[...]

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento 
E pela limpidez das tão amadas 
Palavras sempre ditas com paixão 
Pela cor e pelo peso das palavras 

Pelo concreto silêncio limpo das palavras 
Donde se erguem as coisas nomeadas 
Pela nudez das palavras deslumbradas 

- Pedra rio vento casa 
Pranto dia canto alento 
Espaço raiz e água 
Ó minha pátria e meu centro 

Me dói a lua me soluça o mar 
E o exílio se inscreve em pleno tempo. 

Sophia de Mello Breyner Andresen







20 agosto 2012

SÚMULA




Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma 
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas 
próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

[...]

Herberto Helder




19 agosto 2012

NO FUNDO DO MAR



No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.

Sophia de Mello Breyner