29 março 2014

O BOSQUE CINTILANTE #12





Estou perdido entre uma sombra
e uma amendoeira,
mas estar perdido não significa
não conhecer a beleza do que passa
no instante em que passas
ou estar mais próximo da desolação
neste vestígio antiquíssimo da desolação.

A sombra de que falo
vem de um lugar onde o coração
está próximo,
de um lugar onde a inocência pulsa ainda
sob a terra,
de um lugar onde os lábios pronunciam
a subtileza de um nome
com o teu nome.

Porque tu és essa ave
que o vento reconhece e agita
o coração,
a árvore branca e poderosa
a que os pássaros regressam,
a árvore que cintila na escuridão
e pelo subtil estremecimento da noite é o último refúgio
de quem se encontra perdido
entre a sombra de uma amendoeira
com o teu nome,
algures no mundo,
neste vestígio antiquíssimo da desolação.

de: Amadeu Baptista
BOSQUE CINTILANTE





25 março 2014

EU CANTO A CHUVA, A TERRA, O VERME





toda a chuva a cair me torna grata
por ela e pela que tem caído sobre mim
nos anos sem tacto, sem vista, sem olfacto.
aqui bebo-a misturada com os resíduos
que o vento trás do fundo do pomar,
gravetos, folhas e flores perdidas.
o cheiro de uma flor de laranjeira perfumou
esta água, para a ablução dos pés
de um poeta que antes fora nómada.
depois, porque não hei-de vestir-me com a túnica
da chuva, que me envolva como árvores
ou um corpo humano vivo e natural?
dormir, onde esta lama doce e insonora
calidamente me vista e me sepulte?
verme, que constróis o altar da chuva
com os teus pequenos montículos e covas
e sob o córtex da nogueira velha
escondeste a tua vida, como oferenda
que vai ser recolhida pelas mãos
de uma criança que ame os dons naturais;
verme, que sabes que eu outrora
já fui muda, não-gerada e ausente,
mostra-me o que mais sabes da chuva,
como és sinuoso nela, vivente,
e eu que devo fazer na pura terra
contigo, lado a lado, ó laborioso?

de: Fiama Hasse Pais  Brandão [25/5/1994]
in: ÂMAGO antologia







19 março 2014

PAISAGEM






Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas…
O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado…
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol…
Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo…
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro…
Não sei quem me sonho…
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma…

De: Fernando Pessoa






14 março 2014

MAQUINISMO


imagem encontrada na net


[encontrei este conto na revista nº 4, verão de 2013,  da Bertrand.
deixo-o assim, sem palavras minhas, para não estragar o seu sentido de
inquietude e da acutilante realidade dos tempos que correm]

  Pouco mais de trinta anos, a farda regulamentar e um espanto de olhos abertos. Rosto simpático, de marido e talvez pai, de homem que dorme à noite.
   Hão-de as mãos subir ao último instante, uma barreira de osso e pele que não deixe entrar o que os olhos não podem parar.
  Importam tão pouco os olhos.
  Há gritos desordenados por cima das rodas nos carris, são vozes ou o metal dos travões de emergência, um atrito de ferro pensado para atrasar o fim, bondoso e inútil como uma oração.
  Mecânica e morte, uma vontade estúpida de olhar para o relógio que ainda me segura o tempo. Em frente, onde um rosto que não entende, de chegar à noite a casa e Nem sabes o que me aconteceu. Despindo a farda, despindo a carruagem e os pedaços de carne trilhados nas rodas.
  Nem eu entendo, nem eu sei, nem eu vou chegar.
  Queria cantar para dentro mas não há músicas para isto, não me lembro de uma melodia nem a vida a passar. E sempre me juraram que sim, que os anos todos num único segundo, que as tristezas e muito mais as alegrias. Porque raio me juraram sempre?
  É a minha primeira vez e também deve ser a sua. Algum de nós há-de cobrir o rosto antes do fim.
  Tremem-me as pernas ou o chão. Quantos segundos desde que ainda não morri?
  Dois homens em breve desarrumados, um de corpo, o outro só da cabeça.
  Talvez tenha filhos que se chamem Paula e Sebastião. O que foi? Não foi nada, dirá o homem de rosto simpático, dedos pelos cabelos muito loiros, mãos por onde a morte não entrou.
  Uma mulher que espere e até ame, Sara, de silêncios e palavras leves. Foi apenas um dia triste, não penses nisso, há quem nasça só para morrer.
  Sou quase um dia esquecido.
  Ninguém me agarra, imagino-lhes as ideias em vai-e-vai, as pernas tensas e as bocas mudas, E se eu... também eles de mulheres e maridos, filhos e casas para pagar. E ninguém me há-de agarrar.
  A travagem aumenta a espera e pode a eternidade ser isto, um desacelerar continuo que não chega para eliminar completamente o movimento.
  Agora ele abre e fecha a boca, não sei se me insulta ou se chama por Deus. Salva? Salta? Mas eu não consigo, nenhuma força para saltar.
  Um rosto de um homem bom, duas rugas fundas que hão-de marcar-lhe a testa, um aviso sério contra o que eu sou.
  Não me lembro de nenhuma canção, nem dos anos, só de algumas palavras que um dia foram versos, «saber do tempo mais do que a espera». Levo pouco e deixo pouco.
  Há-de Sara beijá-lo e trazer-lhe o sono, Há quem nasça só para morrer e agora está morto, uma música de embalar homens com medo, uma voz por cima das rodas e dos gritos aflitos de gente.
  Gostava de conhecer-lhe o nome para lhe dizer adeus, é a minha primeira vez e também deve ser a sua.
  Chegámos ao fim do tempo, e sou eu quem levanta as mãos.

de: Nuno Camarneiro



09 março 2014





se nas mãos encontrássemos os elos
por que tecemos os dias
e com elas revelássemos o Sol
que em nós fez crescer as manhãs

pedir-te-ia um ocaso suspenso entre os dedos
para que nesse instante figurasse o tempo
mediador de vozes e silêncios concretos

agora, desta janela reescrevemos as casas
os sóis de um só fruto de silêncio ainda por dizer

Gisela Ramos Rosa
[Maio de 2009]

in: sulscrito 3, Junho 2010
[antologia da indiferença]