30 maio 2013





estava sentada no meio do café, com as mesas cheias
à sua volta. estava sózinha, e o olhar perdia-se
entre o ar e o balcão, fingindo estar atenta
ao que se passava, como se alguma coisa se
passasse entretanto. tinha tomado o café; e o copo
de água estava cheio, ao lado de um cinzeiro
que não servia para nada, porque não fumava.
 
segui a direcção dos seus olhos, vendo o vazio
formar-se no lugar em que os meus e os dela
se cruzavam, nessa zona branca do café em que
o fumo dos cigarros absorvia as conversas e
o barulho das chávenas. e deixei-a estar por
algum tempo, na ilusão de que estava sózinha,
até olhar para a porta, de onde alguém viria.
 
não fiquei para saber se quem chegou era quem
ela esperava, ou se continuaria a fixar o
horizonte da parede onde um relógio insistia
em pontuar o tempo. e continuo a vê-la,
puxando o cabelo para trás, num gesto de quem
julga que alguém vai chegar, sem saber que
quem havia de chegar a deixou sózinha, comigo.
 
Nuno Júdice
 
 
 

 

4 comentários:

  1. E assim surgem as oportunidades...como se perdem também :))


    Beijinho

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  2. Boa tarde!
    Parabéns pelo precioso texto.
    Abraços
    Sinval

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    Respostas
    1. olá Sinval
      bem vindo ao Vento!

      grata
      abraço
      :)

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  3. E porque gosto de Nuno Júdice, gostei da leitura claro...
    Bom fim de semana
    Bjs

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